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Tenharim Timbira

Os Tenharim no conjunto Kagwahiva

Além dos Tenharim, existem outros grupos com a organização social semelhante. Todos eles adotam a autodenominação Kagwahiva. A palavra Kagwahiva, segundo os Tenharim, significa "nós", "a gente". Assim foram registrados estes grupos na documentação histórica, mas devido às diversas grafias, acabaram gerando muitas discussões com relação ao nome e à sua abrangência: Cavahiba, Cabaiba, Cabahiba, Kawahib, Kagwahív, entre outras.

Existem hoje poucos remanescentes destes grupos Kagwahiva: os Tenharim do rio Marmelos, os Tenharim do Igarapé Preto e os Tenharim do rio Sepoti, os Parintintin e os Jahói. Todos eles habitam ainda hoje a região sul do Estado do Amazonas. Além destes grupos, são considerados Kagwahiva também os Uru-eu-wau-wau, os Mondawa, os Karipuna e os Juma. Os três primeiros na região do alto Madeira, em Rondônia e o último na região do rio Purus, no Amazonas.

Os grupos Tenharim vivem na região definida pela antropologia como Madeira-Tapajós, localizados cada qual em uma área diferente e identificados geograficamente: rio Marmelos, rio Sepoti, e igarapé Preto. O grupo do rio Marmelos e o do igarapé Preto mantêm uma aliança que remonta ao período anterior ao contato, que ocorreu em meados do século XX. Já o grupo do Sepoti surgiu na década de 1940, quando duas mulheres do rio Marmelos casaram-se com regionais e foram viver abaixo, num afluente deste rio. Embora o sistema seja patrilinear e os indivíduos do Sepoti descendam de dois regionais já falecidos, a identidade assumida é a Tenharim.

Os Tenharim do rio Marmelos, do igarapé Preto e do rio Sepoti são todos bilíngües. Entretanto, no igarapé Preto e no rio Sepoti a língua indígena quase se perdeu e está sendo retomada agora. Entre os Tenharim do rio Marmelos, há o uso da língua nativa no interior do grupo e do português nas relações com o exterior.

Os Tenharim do rio Marmelos

Localizam-se hoje à beira do rio Marmelos, um dos afluentes do rio Madeira. A aldeia é dividida pela BR-230, a rodovia Transamazônica, que se constitui, para os Tenharim, no principal meio de escoamento de alguns de seus produtos como a castanha, a copaíba e a farinha de mandioca, bem como de entrada de alguns produtos manufaturados como o sal, o óleo e o sabão. Antes da mudança para as margens da estrada, viviam numa aldeia localizada no curso superior do rio Marmelos. Nesta área, juntamente com os Tenharim, vivia um comerciante que intermediou suas relações com os regionais a partir da década de 50 e que foi um dos responsáveis pela transferência do grupo para as proximidades da rodovia Transamazônica.

A população Tenharim, embora hoje seja densa, de acordo com eles próprios, não o era no início da década de setenta, quando houve uma séria depopulação, decorrente da transferência para a margem da referida rodovia. Os informantes dizem que muitos indivíduos morreram neste período, vitimados por doenças como gripe e malária. Em 1994, a população compunha-se de 301 indivíduos; deste total, aproximadamente 58% possuia menos de quinze anos.

Os Tenharim do igarapé Preto

Os Tenharim do Igarapé Preto vivem hoje numa aldeia localizada na região intermediária entre a mata serrana e o cerrado. Eram 43 indivíduos em 1997. Vivem da caça e pesca e da coleta de castanha e produção de farinha para comercialização. É evidente a busca de uma auto-afirmação cada vez maior e a retomada de formas tradicionais de organização que tinham sido abandonadas em conseqüência do contato, principalmente da mineração.

A partir dos anos 40, durante um longo período, os Tenharim do igarapé Preto viveram dispersos na região explorando seringa. Entraram no sistema de aviamento e tiveram diversos patrões de seringais. Depois disso, nos anos 60, a área foi invadida por garimpeiros em busca de cassiterita, que havia sido descoberta por volta de 1953 em Rondônia e no sul do Amazonas. Novas jazidas e a facilidade de acesso, com a abertura da BR- 364 (Cuiabá–Porto Velho) e da BR- 230 (Transamazônica) no final da década de 60 e início de 70, deixaram a região completamente ocupada por garimpeiros, que realizavam a lavra de forma manual. Segundo os Tenharim, não era mais possível caçar ou pescar, pois, a qualquer local que se fosse, havia um grupo de garimpeiros. Posteriormente a Empresa de Mineração Paranapanema instalou-se na área e, em seguida, a Mineração Brasileira Estanho Ltda. (MIBREL). Com redução da cassiterita, as empresas partiram, deixando um rastro de destruição e uma cidade abandonada.

A atual aldeia localiza-se próximo à margem esquerda do Igarapé Preto, a um quilômetro da antiga sede da mineração. É uma construção feita pela MIBREL, como parte das negociações pelo aproveitamento do subsolo da área indígena.

Os Tenharim do rio Sepoti

Em 1998, os Tenharim do rio Sepoti somavam 65 indivíduos, podendo-se observar uma boa parte na faixa etária entre 0 e 19 anos. A área requerida pelo grupo encontra-se em processo de identificação e divide-se em duas glebas: a gleba Estirão Grande, onde se localiza a atual aldeia e a gleba Sepoti, onde o grupo realiza suas atividades produtivas e constrói, atualmente, uma nova aldeia.

Os Tenharim do rio Sepoti não diferem dos grupos do Marmelos e do Igarapé Preto. Do ponto de vista econômico, são envolvidos por um sistema regional de comércio com regatões que transitam pelo rio Marmelos, trocando produtos naturais por produtos industrializados. Apesar de não realizarem suas festas tradicionais no Sepoti, estão perfeitamente ligados às tradições Kagwahiva, estabelecendo intercasamentos e participando da vida sócio-cultural da aldeia localizada no rio Marmelos.

Situação das Terras

Os Tenharim somam uma população de 409 indivíduos distribuídos em três Terras Indígenas. Apesar de considerarem-se grupos autônomos, possuem estreitas relações entre si, o que implica, através do casamento, um intenso trânsito de homens e mulheres entre as três áreas acima referidas. Atualmente a garantias das terras Tenharim está estabelecida da seguinte maneira: A Terra Indígena Marmelos, com 497.521 hectares, está homologada, mas este povo indígena tem reivindicado uma revisão de limites em dois pontos do atual território; a Terra Indígena Tenharim do Igarapé Preto, com 88.240 hectares, está em processo de identificação, com a publicação do edital que define os limites nos jornais do Estado do Amazonas; e a Terra Indígena Sepoti, com 247.859 hectares (glebas Sepoti, com 247.585 hectares, e Estirão Grande, com 274 hectares), também está em processo de identificação, com o processo tramitando nas dependências da FUNAI em Brasília.

História do contato

As primeiras referências aos grupos Kagwahiva localizam-nos, por volta de 1750, primeiramente na região do curso superior do rio Juruena, ao lado dos Apiaká. Região praticamente desconhecida das frentes de expansão, posteriormente foi vasculhada pela frente mineradora, que desde Cuiabá avançava para o norte à procura de novas minas de ouro. Este fato, bem como a guerra com os Munduruku, foram assinaladas como causas do deslocamento dos Kagwahiva dessa região para as margens do rio Madeira.

Já nesse rio, em 1817, os Kagwahiva são registrados pela primeira vez sob o etnônimo de Parintintin, dado, talvez, pelos Munduruku aos seus inimigos. Em 1850, Kagwahiva e Parintintin são registrados ao mesmo tempo e, depois disso, o etnônimo Kagwahiva desaparece e tais povos passam a ser designados por Parintintin. Após a "pacificação" realizada por Nimuendajú em 1922, foi possível constatar que Kagwahiva é a autodenominação dos Parintintin e que esta última designação apenas se aplicava a um desses povos.

Na região do rio Madeira, a aproximação dos grupos Kagwahiva com a sociedade brasileira se deu após uma intensa guerra, que perdurou por cerca de 70 anos, entre meados do século XIX e a década de vinte do seguinte, só terminando com a ação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI) e após a instalação definitiva de colocações de seringueiros na região. Curt Nimuendajú foi o principal agente dessa aproximação: contratado pelo SPI, organizou expedições e se fixou no interior do território indígena, mas por falta de verbas do SPI, ele abandonou seu projeto com apenas cinco meses, deixando em seu lugar vários auxiliares.

Ao que parece, era desconhecida até então a diversidade de povos Kagwahiva nessa região, todos eram considerados Parintintin. No entanto, o etnônimo Kagwahiva é anterior, e suas referências em vários locais diferentes parecem demonstrar um deslocamento dentro de uma vasta extensão da área Madeira-Tapajós.

Os Kagwahiva, conhecidos após 1817 sob o etnônimo de Parintintin, estavam distribuídos em pequenos grupos locais com território determinado e ocupando uma grande região entre os rios Madeira e Tapajós. Viviam entre a aliança e o conflito, mas reconheciam-se enquanto uma única sociedade. Cada um destes grupos locais, provavelmente, organizava-se em torno de um grupo doméstico, e possuía o nome de seu líder ou de sua localização (no caso rios, serras etc.). O faccionalismo é uma característica de tais povos e conseqüentemente as uniões eram instáveis e novos grupos estavam em constante formação. Registros orais reforçam a territorialidade, narrando a distribuição na região, realizada por Nhaparundi, ancestral Tenharim, e também que, em momentos iniciais do contato, os grupos chegaram a se unir para evitar o contato com não índios. De certa forma é impossível registrar com precisão a constituição dos povos Kagwahiva na região, mas os relatos demonstram e a documentação confirma, que os mesmos ocupavam a região intermediária entre os rios Madeira e Tapajós.

Os relatos dos Tenharim do igarapé Preto denotam uma ocupação muito antiga da região serrana onde vivem atualmente. As longas migrações realizadas têm sempre como referência as serras e o cerrado que são o entorno do igarapé Preto. As serras são também parte do universo cosmológico Kagwahiva. Mbahira, herói mítico, é morador destas serras e possui uma série de animais de estimação e atributos relacionados às pedras. Todas as serras da região do igarapé Preto são tidas como morada de Mbahira e, em tais lugares, é possível encontrar muitas coisas pertencentes a este herói (flores, fezes, animais, farinha).

Todos os Kagwahiva narram seus feitos no passado na forma de cantos. Todos estes cantos são acompanhados no final por uma frase que caracteriza o grupo que vivenciou a situação. Entre os Tenharim do igarapé Preto na frase "Iu, Iu, Tenondehu, Yvytyruhu", que acompanha o final das canções, a palavra Yvytyruhu designa a região serrana onde o grupo vive. As canções dos Tenharim do rio Marmelos, por sua vez, referem-se ao rio, definido por eles como Ytyngyhu.

Os Tenharim do rio Sepoti são remanescentes de alguns indivíduos Tenharim que partiram, por volta da década de 40, de uma aldeia que se localizava no curso médio do rio Marmelos. Estes indivíduos, dois homens não indígenas e duas mulheres Tenharim, resolveram residir no rio Sepoti para trabalharem na indústria extrativista, coletando castanha, sorva e seringa.

Hoje a população cresceu, realizando alguns casamentos com o grupo de origem, mas sempre residindo na região do rio Sepoti. Os homens que saíram da aldeia na década de 40 já faleceram, restando dessa geração apenas suas esposas, com seus filhos, filhas e netos.

Organização Social

A organização social Tenharim, como a dos demais Kagwahiva, possui uma particularidade em relação aos outros povos Tupi-Guarani: um complexo sistema de metades exogâmicas, que recebem nomes de aves. Essas metades são: Mutum-Nanguera e Kwandu-Tarave. Na primeira, a Mutum (também "mutum" em português, nome incorporado da língua geral) associa-se a palavra Nanguera, que não se refere a nenhuma ave, significando, segundo os Tenharim, algo do passado. Na segunda, a Kwandu (que quer dizer "gavião-real") se associa Tarave (que significa "maracanã").

Todo indivíduo pertence à metade do pai, pois o sistema é patrilinear. Sendo exogâmico, só pode casar-se com alguém que seja da metade oposta. Isto faz com que a sociedade divida-se ao meio, em dois grandes conjuntos que realizam o intercasamento entre si. Só é possível o casamento na mesma metade quando o indivíduo vive longe. Neste caso, tudo se passa como se a distância geográfica provocasse uma distância genealógica, transformando o casamento proibido numa união possível.

A regra de residência pós-marital entre os Tenharim é patrilocal, e verifica-se aí a existência de um período de serviço-da-noiva, quando o genro deve obrigações ao sogro em função do casamento. O tempo de trabalho varia de acordo com o prestígio envolvido na relação. Sogros poderosos encabeçam grupos domésticos que trabalham em conjunto permanentemente, mas nos casos em que o poder político do sogro é inexistente, os genros voltam a viver próximo a seus próprios pais após cinco anos aproximadamente.

A estratégia para a constituição dos grupos domésticos envolve a retenção de filhos e a cooptação de genros, por meio da instituição do serviço-da-noiva, isto é, a obrigação de auxiliar no trabalho ao pai da esposa. Os grupos domésticos podem agrupar-se em unidades maiores, os segmentos residenciais, que constituem as facções políticas que disputam entre si no interior da sociedade.

Atividades econômicas

O início da estação seca, por volta de junho, no sul do Amazonas é marcado pela derrubada da mata e o início do plantio das roças. Na Transamazônica (Tenharim do rio Marmelos), nessa época, muitas famílias deixam a aldeia para viver temporariamente em seus "sítios", preparando a lavoura e amenizando a convivência entre si. Alguns optaram por morar nesses sítios definitivamente, mantendo uma casa para estadas temporárias na aldeia. Nos "sítios", pode-se observar a introdução de novas plantas, como por exemplo a melancia e, em alguns casos, também da criação de gado. Mas, apesar do baixo custo de mercado, a farinha continua sendo a produção prioritária.

Na Transamazônica e no igarapé Preto, o excedente da farinha é trocado por produtos industrializados na própria aldeia. Essa troca é efetuada com comerciantes que chegam da cidade já com os pedidos da população. Em geral, estes indivíduos sobrevalorizam os produtos industrializados e subvalorizam os produtos Tenharim. Além da farinha, interessam-se também pela aquisição de castanha e de óleo de copaíba. Para o transporte dos produtos, utilizam o caminhão dos Tenharim ou o da prefeitura, que circula semanalmente pela rodovia Transamazônica, conduzindo a população que vive ao longo da estrada. No rio Sepoti, o comércio é feito com os regatões, que chegam à aldeia com barcos carregados de produtos industrializados para a troca.

Além da produção agrícola, os Tenharim vivem da caça, da pesca e da coleta. Há, por parte de alguns grupos domésticos, uma intensa produção de artesanato, que consiste em arcos, flechas, cocares, colares, pulseiras e anéis, que são comercializados em Porto Velho e em eventuais viagens.

Universo simbólico

A aldeia do rio Marmelos é referência para todos os grupos Tenharim. Lá ocorrem as festas tradicionais que congregam a maioria dos grupos Kagwahiva. Destes momentos apenas não participam os Kagwahiva da região do alto Machado (Mondawa, Uru-eu-wau-wau, Juma e Karipuna). Entretanto, mais recentemente, com a articulação do movimento indígena regional, percebe-se uma tendência destes rituais congregarem todos os grupos Kagwahiva. A principal destas festas é a Mboatava, que acontece entre julho e agosto e que possui uma relação muito estreita com o grupo doméstico. Nesta ocasião, um indivíduo assume a organização da festa e convoca os melhores caçadores e pescadores para saírem em expedição. Enquanto os caçadores estão fora, muita farinha mandio’y é produzida pelos indivíduos que fazem parte do grupo doméstico do organizador. O chefe permite a retirada de banana verde de suas roças para depositá-las próximo à sua casa, além de distribuir muitos produtos cedidos pela FUNAI, que se encontram em seu depósito. Além da banana, que estará madura para a festa, e da farinha, os Tenharim promovem expedições de coleta de castanha para elaborar o prato principal da festa, carne de anta cozida no leite da castanha.

Vários grupos de caçadores, convocados pelo organizador da festa, partem em diferentes direções e vão caçando e pescando ao mesmo tempo (geralmente seguem em expedições de barco). Tudo é moqueado (conservado pela exposição ao fogo brando) e alguns dias depois combina-se um determinado local próximo da aldeia para um encontro e posterior chegada triunfante de todos à aldeia. Quando os caçadores despontam ao longe, os homens que ficaram já estão pintados e gritam e atiram para cima, saudando-os. O organizador da festa começa então a cantar e tocar flauta, andando ao redor das casas. A caça é cozida e parte do peixe é distribuído por ele, juntamente com a farinha mandio’y. A castanha é pilada, colocada para ferver com a carne da anta e depois é servida com a farinha na forma de um pirão.

Ao mesmo tempo, os homens começam a dançar no terreiro do grupo doméstico do organizador da festa. Todos, devidamente paramentados com cocares e saias, portando longas flautas de bambu e acompanhados pela batida do pé direito no chão, dançam em círculos, apontando suas Yreru, longas flautas feitas de bambu, para o centro. No círculo dos dançarinos integram-se posteriormente as mulheres, que entram sob o braço de seus respectivos maridos.

Situação atual

Hoje há toda uma articulação política na região sul do Amazonas, conduzida pelos Tenharim do rio Marmelos. Este grupo fundou a Associação do Povo Indígena Tenharim–Morogeta (APITEN), que envolve todos os grupos Tenharim e os representa no cenário político da região. A APITEN tem a intenção de intermediar as relações econômicas dos Tenharim, assumindo as transações com castanha, farinha e demais produtos. Além disso, há uma discussão em torno de um projeto de turismo ecológico na região. Além dos Tenharim, a APITEN pretende ser representante de todos os povos indígenas da região e em suas assembléias estão sempre presentes, além de todos os grupos Kagwahiva próximos, como Parintintin e os Jahói, as associações indígenas de povos vizinhos.

Os Tenharim são assistidos por diversas organizações religiosas e não governamentais. Os primeiros a chegarem junto aos Tenharim do rio Marmelos foram os missionários da Sociedade Internacional de Lingüística (SIL), na década de 60, vindos da área Parintintin. São duas missionárias que periodicamente comparecem à aldeia, onde possuem uma casa e sistematicamente trabalham com a língua e a evangelização. Hoje a aldeia da Transamazônica (dos Tenharim do rio Marmelos) fragmentou-se e novas aldeias foram fundadas. Uma delas localiza-se no igarapé Mafui e o chefe é pastor evangélico. Num dos núcleos da Transamazônica, há uma igreja evangélica e um dos indivíduos locais, filho do vice-cacique, está em formação em Chapada dos Guimarães, MT, para se tornar pastor.

O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) apóia a APITEN e se faz presente em todas as assembléias. Um grupo de indigenistas do CIMI atua diretamente junto aos Tenharim do rio Sepoti. A Operação Amazônia Nativa (OPAN) desenvolve um trabalho voltado para os Tenharim, que participam de cursos de formação de professores e agentes de saúde. Recentemente uma nova organização se estabeleceu junto aos Tenharim do rio Marmelos, denominada Uirapuru.

Apesar da ação direta, principalmente evangélica, os Tenharim articulam-se de maneira a melhor aproveitar o apoio recebido. Percebe-se objetivamente a busca de uma autonomia com vistas a um futuro sem interferências. Apesar do característico faccionalismo, há uma lúcida união em torno dos interesses que contemplam todos os grupos. Entre as prioridades estão a demarcação de todas as terras e revisões que se fizerem necessárias, levantamento dos recursos econômicos presentes em cada uma para um futuro aproveitamento, manejo dos recursos já em utilização e a garantia dos interesses de todos os grupos junto às missões, organizações não-governamentais e Estado.

Nota sobre as fontes

Sobre o histórico da região do curso médio do rio Madeira, onde os Tenharim e os demais Kagwahiva em geral habitam, existem dois amplos estudos realizados por Vitor Hugo (1959), de uma ótica missionária, e por Miguel Menéndez (1981/82; 1984/85). Mais especificamente sobre os Kagwahiva, temos o relatório de Curt Nimuendajú (1924) e um texto do mesmo autor publicado no Handbook of South American Indians ([1948]1963). Os Tenharim do rio Marmelos foram referência nos estudos realizados por Menéndez (1989) e Peggion (1996a). Aparecem também em artigos escritos por estes mesmos autores: Menéndez (1987) e Peggion (1995; 1996b).

Os Tenharim do Igarapé Preto estão presentes numa série de relatórios realizados a pedido da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), para identificar e avaliar o impacto da mineração na sua Terra Indígena (Maciel, 1987; Santos, 1989; Peggion, 1997), e num artigo sobre os trabalhos de identificação (Peggion, 1998). As áreas Tenharim do rio Marmelos e Tenharim do Igarapé Preto são abordadas conjuntamente em Mariz, 1984; Menéndez, 1985a; 1985b; e Valadão, 1987. Já sobre os Tenharim do rio Sepoti, Heringer e Lange (1981) registraram sua passagem pela região em que habitam e está em avaliação o relatório de identificação desta Terra Indígena (Peggion, 1998).

Edmundo Antonio Peggion
Pesquisador CNPq/UFMT
janeiro de 1999