Retour à l'accueil

                  
Mayoruna

Os Mayoruna não são ainda totalmente conhecidos devido a distância onde estão localizadas as suas aldeias. Anteriormente eles habitavam as cabeceiras do rio Gálves (Peru), formador, juntamente com o rio Jaquirara, do rio Javari. Este, por sua vez, afluente pela margem direita do rio Solimões.

Atualmente os Mayoruna vivem em 7 aldeias assim distribuídas: Aldeia Lobo (Sede do P.I.A. Lobo), no igarapé do mesmo nome; Aldeia Ituxi, no igarapé do Ituxi; Aldeia Lopes, no igarapé do mesmo nome; Aldeia 31, na margem direita do rio Jaquirana; Aldeia Lameirão, na margem direita do Baixo rio Javari (fora da área de influência dos Mayoruna); Aldeia Choba, no igarapé do mesmo nome, na República do Peru.

Existe ainda um grupo arredio aIdeado nas cabeceiras do igarapé Lobo, com afluentes do rio Jaquirana.
A região de influência dos Mayoruna é característica da Amazônia Ocidental. A vegetação é amazônica, formada de árvores de grande porte, com muitas variedades de madeiras nobres e com uma fauna muito variada. Encontram-se grandes quantidades de araras, onças, queixadas, macacos e capivaras.

Apesar do rio, igarapés e lagos serem de pouca profundidade, são muito piscosos, tendo muita variedade de peixes, como, por exemplo: pirarucus, surubins, jundiás, pacus e traíras. Nos meses de junho a agosto, após o término das enchentes, as pequenas praias recebem grandes quantidades de tartarugas e tracajás (espécie de tartaruga de pequeno porte muito abundante na Amazônia) que à noite vêm às praias para a desova.

Esses quelônios estão correndo um sério risco de extinção devido à caça predatória por parte dos civilizados que nessa época do ano se deslocam para a região.

Anteriormente, como fora mencionado, os Mayoruna viviam aldeados no alto rio Gálves. Devido à aproximação dos brancos, caçadores de animais de pele preciosa, foram travados vários combates entre Mayoruna e Peruanos. Nesses encontros foram dizimados dezenas de silvícolas. Aproximadamente no ano de 1920, conforme relato do indígena NAQUA —Chefe tribal da Aldeia Lobo — que após a morte de seu pai em um combate com os caçadores, resolvera mudar de área.

Depois de uma reunião, decidiram enviar quarenta indígenas para explorar a região do alto rio Pardo, afluentes do rio Curuça, no Brasil. Após 4 meses de espera, regressaram 5 índios e relataram que haviam encontrado um local com muita caça e sem vestígios de brancos; os demais membros da expedição permaneceram no local, preparando os roçados e as malocas. Nessa oportunidade, foram feitos os preparativos para a longa caminhada — 250km aproximadamente. Apanharam seus parcos pertences com algumas sementes de milho, pupunha, maniva e mudas de bananeiras e empreenderam longa caminhada em direção à nova morada, demorando cerca de três meses. Nessa viagem houve alguns incidentes - duas pessoas faleceram, uma menina fora picada de cobra e um ancião atacado por uma onça vermelha (Suçuarana).

Ao chegarem na nova aldeia, encontraram uma das casas prontas e um bom pedaço de mato derrubado. Após se refazerem da longa caminhada, iniciaram o plantio da Terra que já se encontrava preparada, porém, as mudas de maniva já estavam secas devido ao longo tempo que ficaram fora da terra. A noite, os chefes tribais se reuniram, para decidir onde encontrar maniva. Decidiram, então, que 30 rapazes desceriam o rio até encontrarem uma roça de mandioca.

No dia seguinte empreenderam viagem rio abaixo, enquanto o pessoal que ficou na Aldeia começava a derrubada das matas para aumentar suas plantações.

Viajaram cerca de um mês, em canoa de colmo de paxiuba, quando certo dia sentiram cheiro de fumaça e vozes de civilizados. Apressadamente arrastaram suas canoas para a terra. cobrindo-as com folhas de paImeiras, e foram cautelosamente para onde vinha o ruído das vozes. Em .seguida encontraram um caminho muito limpo, com rastros de pés descalços. Seguiram pôr fora do caminho até depararem com uma choupana de seringueiro.

Pernoitaram no local de onde observavam todos os movimentos do pessoal da casa. Ao perceberem que o seringueiro saíra em uma canoa em direção à outra margem do rio e penetrara na selva, uns dez índios invadiram a choupana apoderando-se de uma espingarda, dois facões, uma caixa de cartuchos e várias caixas de fósforos. Sem maltratarem as mulheres e as crianças, alguns índios foram apanhar várias mudas de maniva em uma roça próxima. Regressaram, logo após, satisfeitos pelo êxito obtido sem haver nenhum incidente.

Os Mavruna permaneceram no rio Pardo cerca de 40 anos sem ser molestados pelos brancos. Algumas vezes travavam lutas com os Maribus — seus parentes — do rio Curuçá.

Por volta de 1965 começaram a aparecer os primeiros aviões de uma missão religiosa que sobrevoavam as suas malocas. Os índios apagavam o fogo, fugiam de suas casas, até que o avião desaparecesse. Depois de muitas tentativas, num determinado vôo, jogaram vários brindes, como panelas, facões e roupas. Receosos e muito irritados, jogaram os brindes para dentro do rio, com auxílio de paus para não tocarem nos objetos.

Todas as vezes que os índios recebiam brindes, jogavam no rio ou queimavam. Porém, uma vez em que o chefe tribal estava ausente, o avião jogou machados e facões. Os objetos permaneceram muito tempo no local, até que os índios resolveram apanhar os brindes, deixando as mulheres com inveja, pois só havia presentes para os homens.

Depois de muita insistência por parte dos membros da Missão Norte-Americana, os Mayoruna mudaram de área novamente. Foram para o alto Igarapé Lobo, permanecendo muito pouco tempo nesse local devido à presença de madeireiros, seringueiros e caçadores nas proximidades.

Em represália à presença de brancos, os Mavruna empreenderam longas viagens pelo médio rio Javari, onde raptaram duas mulheres de seringueiros — Angela e Noemia — que posteriormente casaram com Mayoruna e vivem até hoje na Aldeia Lameirão. Raptaram, mais tarde, três mulheres que vivem na aldeia Choba Peru e um garoto peruano que vive na Aldeia Lameirão.

Com medo de vingança por parte dos brancos, os Mayoruna resolveram se dispersar; e em 1969 dividiram-se em 5 facções assim distribuídas: uma permanecendo no mesmo local, outra voltou para o Rio Pardo, outra para as cabeceiras do Igarapé Choba, outra para o médio Igarapé Lobo e a última mudou-se para as cabeceiras de afluentes do rio Jaquirana.

Os missionários mantiveram os primeiros contatos com o grupo que foi para o Choba (Peru). Através destes, os Mayoruna do rio Pardo, Lobo e afluentes do rio Jaquirana foram convidados para se encontrar com os missionários. Os índios do rio Jaquirana recusaram o convite e vivem até os dias de hoje em estado arredio.


Habitação

As casas dos Mayoruna são em formato hexagonal, feitas no mesmo estilo de antigamente, porém, em tamanho reduzido. A armação é de paus roliços, paredes de paxiuba e cobertura de palha de acaranã. O interior é de chão batido e muito limpo, com duas entradas e no centro uma divisão de paxiuba onde atam suas redes para dormir. A cozinha fica no fundo da casa grande; se o dono da casa tiver mais de 2 mulheres, são feitos dois fogos. um em cada canto da cozinha. Fazem também, prateleiras de paxiuba amarradas com cipó, onde guardam carne amuquinhada e bananas.

Somente os mais antigos usam um foguinho em baixo das redes. Os solteiros vivem em casas separadas. indo a casa dos pais somente para comer. Homens e mulheres tomam banho juntos e trocam suas roupas na margem do rio.


Ocupação

Os homens passam a maioria do tempo em suas roças, plantando, colhendo e limpando. Também passam vários dias caçando. As mulheres ocupam-se das tarefas domésticas, preparam as refeições. apanham lenha no mato e tecem suas pulseiras e redes, enquanto as meninas cuidam das criancinhas e trazem água para dentro da casa.



Pulseira Mayoruna feita com fibra de tucum

Caça, pesca e coleta

Atualmente os Mavruna utilizam mais a espingarda do que o arco e flecha (Kantí-piá) e sua caça predileta é o macaco quatá (tixuít), muito abundante na região. A pesca é feita através de folhas, de uaka ou timbó (tium); depois de escolherem um lago adequado, todo o pessoal da aldeia se desloca para a Captura dos peixes que são assados na margem do lago.

Utilizam linha de náilon e anzóis para pescar em água corrente — tarefa de mulheres e meninos.
A coleta de frutas é feita por mulheres e crianças. Suas frutas prediletas são o patauá (içam), buriti (itiá) e cacau (bacuê).

Curiosidades

Antes do contato com o branco, algumas mães ao darem à luz a uma menina, às vezes a sacrificavam, não se sabendo por que motivo. Quando está próximo de uma mulher dar à luz, se isola em um tapiri bem distante da aldeia. Quando é o primeiro parto, é sempre assistida por uma senhora idosa.

Entre os Mayoruna existem algumas pessoas com defeitos físicos: na Aldeia Lameirão há um rapaz com um braço defeituoso, na Aldeia Lobo há um menino surdo-mudo e na Aldeia 31 existe uma menina mongolóide.

Lendas

Primeiro DEUS (ABÚ) criou a terra (matá), os céus (ABU), a água (até), os ventos (KUNKUEKIT) e os homens (matses). Porém, ele esqueceu de dizer quais os alimentos que Mayoruna podia comer (pekim), então Mayoruna comia terra, de manhã, de tarde e quando sentia muita fome. Assim se passou muito tempo e os Mayoruna sempre comendo terra. Certo dia os meninos (matompi) estavam chorando muito (xubiédatpem), pois não gostavam de comer terra, pois terra era muito ruim de comer (matá-isambó).

Certo dia, todo o pessoal da aldeia estava chorando por não querer mais comer terra. Apareceu o Mutum (Uasínit) e perguntou por que Mayoruna estava chorando (Toskê matses, xubié datpem). Mayoruna respondeu que Deus só dava terra para comer e terra era muito ruim, não presta para comer (matá pekim isambó). Mutum disse que voltaria no dia seguinte e o levaria para a sua casa. Mayoruna aceitou o convite. Viajaram vários dias e Mayoruna sempre com fome (namãeerampi), pois não queria comer mais terra.

Chegando próximo ao Igarapé — disse-lhe o Mutum: Mayoruna. aqui é bom de se morar e não precisa comer mais terra. O Mutum apontou para uma palmeira e disse: pessoal (matses) traz as folhas para fazer casa. Mostrou-lhe um cacho de bananas (maní) e disse para Mayoruna comer que era muito bom. Mayoruna comeu e gostou. Mutum mostrou um pé de milho (piabó). Mavruna comeu e achou muito gostoso. Mutum trouxe um cacho de pupunha (titáro), Mayoruna comeu e achou muito ruim. Mavruna ficou brabo e quis matar Mutum. Este com medo, voou para o alto de uma árvore e lá de cima pediu para Mayoruna buscar barro e dois pedaços de pau (kuté), então Mutum desceu da árvore, amassou o barro e fez panela (xocóx), esfregou um pauzinho no outro e obteve fogo. Colocou a pupunha na panela para cozinhar e Mayoruna comeu achando muito bom. Mutum trouxe batata-doce (katí), cará (buiurn) — Mayoruna comeu e gostou. A noite (utxixkió), quando Mayoruna dormia, de barriga cheia, (namãeet-tapá), Mutum foi embora para sempre e Mayoruna nunca mais comeu terra.


Aspectos Diversos

Os Mayorunas pertencem ao tronco lingüístico PANO, seu dialeto é muito similar aos demais grupos indígenas do vale do rio Javari. Os do Igarapé Choba falam fluentemente o espanhol; os da Aldeia Lameirão entendem bastante o português e o espanhol, os demais grupos pouca noção têm de nosso idioma.

Usam adornos de dentes de macacos. Com que fazem colares (xitá), de fibra de tucum (dií) fazem pulseiras e perneiras (its un). As mulheres perfuram o nariz e introduzem hastes de capim (uásim) em formato de leque.

Os homens perfuram acima do lábio superior introduzindo espinhos de pupunheira (titáro pitxu), formando um estranho bigode (kuebú). Da entrecasca da embireira preta, os homens fazem um cinto (dií) usando bem apertado no tórax. Devido à influência da missão religiosa, foram introduzidas miçangas, com as quais as mulheres fazem colares (cacerô) com várias voltas no pescoço.

Todos os homens e mulheres se pintam com tinta de urucum (piúté) e jenipapo (tixuité). Andam geralmente descalços e evitam usar roupas brancas.

Obtêm o fogo através de fósforos, porem ainda usam o sistema tradicional de nunca apagar o fogo nos tições.

Tanto usam panela de barro, como de alumínio.

Os mais velhos dormem em suas amacas tradicionais, enquanto alguns jovens aderiram à rede de pano.

Para obterem boas caçadas, os homens capturam sapos caruru (xonxon) extraindo de seu dorso uma secreção branca, com a qual inoculam os braços e tórax, com um pedaço de cipó em brasa. Após esse ritual, vão todos para a caçada, sendo que o caçador não come da caça que abateu.

Bibliografia:
Revista Atualidade Indígena nº 21. Julho / Agosto 1981

Instituto Socioambiental | Povos Indígenas no Brasil