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Kaingangs


Os Índios Kaingang aprendem a ler

por Ursula Wiesemann

“Úrsula, foi Deus quem lhe deu o conhecimento necessário para dar à nossa língua uma forma escrita. Por isso nós, os professores, lhe agradecemos muito. (assinado) Os Professores, 2/6/95.” (traduzido da língua kaingang)



Esta placa gravada é um dos objetos particulares que mais valorizo. A maioria dos professores que me apresentaram não tinha nascido ainda em 1958, quando conheci pela primeira vez suas famílias e iniciei a árdua aprendizagem da língua deles. Pedrinho, um famoso ex-chefe, tornou-se meu paciente mestre. Foi ele que insistiu em que um dos seus filhos assistisse a escola em Curitiba, capital do seu estado natal, Paraná. Ele mesmo não sabia ler, e mesmo que seu filho fosse um bom estudante, os magros dois anos passados numa escola brasileira não o tinham transformado, nem a ele nem à sua sorte ou estilo de vida. Ofereço a seguir minha narrativa da vitória dos índios kaingang após sua longa luta em busca de reconhecimento como um povo digno. É um povo por quem, no decorrer dos anos, ganhei muito respeito e afeição.

Quando cheguei a conhecer por primeira vez os Kaingang, eles se encontravam em estado lastimável. Entre os séculos XVI – quando chegaram os primeiros colonos forasteiros – e o início do século XX – quando começaram seus problemas mais sérios – os Kaingang conseguiram levar suas vidas de forma mais ou menos razoável, embora em freqüentes conflitos com os colonos, sobretudo quando estes passaram a se multiplicar. Desde o início do século XX os Kaingang perderam a maior parte do seu hábitat natural; muitos deles foram simplesmente massacrados, ao passo que outros se refugiaram por ocasião do estabelecimento das primeiras reservas indígenas (por volta de 1930). Estas reservas eram administradas por não-indígenas que não entendiam nem a língua nem a cultura dos Kaingang, e os indígenas tinham cada vez menos voz na determinação do seu próprio destino. Acharam difícil a aprendizagem da língua portuguesa, e por isso não tinham jeito de entender as peculiaridades dos “brancos”. Aqueles que optaram por conviver nos povoados dos forasteiros conseguiram sobreviver somente por cortarem relações com suas famílias, integrando-se na comunidade brasileira sem mais contato com suas raízes e origem. Outros tentaram arrazoar com os encarregados das suas reservas, mas foram submetidos a cruéis castigos.

“Quem sabe, se pudessémos tornar-nos forasteiros em vez de sermos indígenas, conseguiríamos sobreviver,” pensaram. Mas como, sem falar a língua portuguesa, nem muito menos saber ler e escrever essa língua? Foi humilhante para eles não poder comunicar-se nem expressar suas necessidades mais fundamentais, sendo por isso tratados como estúpidos e desprezados pelos colonos. Aos poucos os Kaingang iam perdendo a esperança de recuperar sua antiga independência e orgulho, e passaram a tentar afogar seu desespero no álcool. Com o alcoolismo não tiveram reação alguma e a faltou-lhes vontade de superarem a situação. Todos os Kaingang, inclusive os nenéns, tinham o triste olhar de desespero que se tornou marca caraterística do grupo. Sim, parecia moribunda a etnia kaingang, reduzida a menos de 7.000 pessoas espalhadas em 25 reservas por todos os quatro estados do sul do Brasil. O alcoolismo, e as doenças que tomam conta do corpo que perde a saúde e o espírito, estavam decimando os Kaingang. Estes passaram a considerar a morte sua única saída da miséria. Eles não costumavam dar fim a suas próprias vidas, mas ficavam contentes quando alguma doença ceifava a eles mesmos ou a seus filhos. Certa vez uma jovem mãe me explicou, ao prantear em minha casa a morte do seu filho, “Não trouxe meu filho para você tratar quando ele adoeceu, mesmo sabendo que você tinha remédios, pois os remédios só servem para prolongar nosso sofrimento.” Muitos dos Kaingang pensavam assim.

Quando abri o assunto da alfabetização em língua kaingang, os indígenas não viam nisto nenhuma vantagem para sua campanha de se tornarem forasteiros. “Se nossos filhos vão ler, devem ‘realmente’ ler,” uma comitiva de anciãos indígenas me explicou durante uma inesperada visita. Entendi. A palavra “realmente” significava para eles ler na língua portuguesa ao invés da língua materna. Mas os filhos deles freqüentavam uma escolinha bem rudimentar, ministrada em português, e aprendiam essencialmente uma só coisa: “Os índios são estúpidos e não podem aprender nada.” Tal atitude passava de pais para filhos, de mães para filhas, de uma geração para outra. Vi crianças até na terceira geração que aprendiam este triste “fato” na escola. Não admira que estivesse agonizando a etnia kaingang!

Mesmo assim, algumas das mulheres e crianças desejavam ler e escrever seus nomes na própria língua indígena. Elas estavam dispostas a experimentar esta técnica como possível “ponte” para a língua portuguesa, com intenção de provar a si mesmas que de fato não lhes faltava inteligência. Algumas das crianças aprenderam rapidamente e passaram a ler as cartilhas e livros de leitura aos adultos em voz alta. Embora admirassem o esforço dos seus filhos, os adultos acharam a aprendizagem difícil demais e bem desanimadora. Havia em todas as mentes uma dúvida generalizada, “Que adianta?” E a situação não se modificava.

Mas de repente aconteceu uma novidade: No ano 1969 a recém-formada FUNAI (Fundação Nacional do Índio, sucessora do antigo Serviço de Proteção ao Índio), em colaboração com a Igreja Luterana do Brasil, resolveu abrir para os indígenas residentes no sul do Brasil um instituto de treinamento para a formação de futuros professores. Fui convidada a dirigir essa instituição, chamada “Escola Clara Camarão”, por ser o único membro do corpo docente que falava a língua kaingang. Assim, a escola se tornou bilíngüe, e inicialmente os alunos eram todos da etnia kaingang; posteriormente, alguns estudantes da comunidade Guarani, que moravam nas reservas kaingang, passaram a freqüentar a escola também.

Os primeiros alunos da nossa escola não faziam idéia do motivo de serem transportados tão longe da sua reserva para uma escola de que ninguém tinha notícia. Foi realmente um novo empreendimento para todos, e inicialmente os estudantes assistiam as aulas simplesmente como um ato de obediência às autoridades que administravam as reservas. Apesar desse início duvidoso, e das dificuldades encontradas no processo de alfabetização, os alunos passaram a gostar do convívio e aprendizagem escolar. As autoridades visavam alfabetizar esses jovens kaingang na sua própria língua e também na língua portuguesa para habilitá-los como professores e tornar acessível a alfabetização à população inteira. Haveria também a vantagem secundária de infundir mais confiança nesta etnia tão enfraquecida, para que os Kaingang pudessem reabilitar sua própria cultura e coexistir confiantemente com os brasileiros em pé de igualdade.

Uma vez integrados na escola, os estudantes aprenderam a ler na sua própria língua e estudaram outras matérias ensinadas em português. Eles se queixavam, “A lição de Kaingang é a mais difícil do dia inteiro!” Claro que foi, pois todos eles tinham recebido anteriormente alguma escolaridade numa escola brasileira; mas para eles a “leitura” não passava da transposição de letras no papel para sons carentes de significado. A pergunta, “O que você acaba de ler?”, merecia geralmente apenas um olhar vazio, ou talvez a resposta, “Que pergunta mais estranha! Eu li isso, a sra. não me ouviu?”

Tal estratégia não funcionava, porém, na língua materna. Ao decifrarem as palavras, os alunos eram obrigados a pensar sobre seu significado, não apenas o das palavras individuais como também das sentenças inteiras. Foi difícil, sim senhor! Mas essa técnica franqueou para eles as estratégias para todo um processo de aprendizagem dos livros.

A “epifania” dos alunos individuais acontecia em momentos diferentes. Líamos textos bem simples, tentando interpretá-los. O dever de casa dos estudantes consistia na leitura do texto e em escrever respostas às perguntas anteriormente formuladas para mostrar que tinham entendido o conteúdo do texto lido. Após algumas semanas deste treinamento, eles chegaram a dominar o exercício e passaram para o próximo nível: o desafio de contar o texto nas suas próprias palavras. Inicialmente, ninguém conseguiu fazer isso, mas Galdino resolveu o problema à sua maneira. Ele se propôs fazer perguntas de conteúdo, e depois as respondeu. Tal estratégia ajudou também aos demais alunos, e transformou o comportamento escolar do Galdino, que chegou a entender de forma notável todas as matérias que cursava.

As lições de língua kaingang proporcionavam aos alunos a oportunidade de analisarem sua insegurança num mundo que achavam hostil. “Não dê fé às pessoas que chamam você de imprestável. Vocês todos são valiosíssimos e muito úteis neste mundo. Portanto, mostrem o seu valor a todas as demais pessoas!” Tais conselhos, combinados com o desenvolvimento do dominio da aprendizagem escolar e da confiança nos professores, transformaram por completo esses jovens. Eles passaram a aprumar-se em vez de mostrar, pela própria postura, o desejo de desaparecerem da face da terra. Transformou-se também o rosto deles, e seu olhar brilhava. Ao chegarem visitantes para observar nossos futuros professores – sendo a “Clara Camarão” a única escola do tipo no Brasil e alvo de muitas visitas dessa espécie – eles olhavam ao redor em busca dos “índios” enquanto contemplavam os estudantes sem reconhecê-los! Assim foi concebida mais uma nova estratégia.

Antes de freqüentar à escola, os Kaingang desprezavam sua identidade de tal forma que se envergonhavam de falar a lingua materna na presença de não-indígenas. Mas agora eles empregavam essa mesma língua com orgulho para estabelecer sua identidade étnica ante os incrédulos visitantes. Demonstravam sua habilidade na leitura dos textos, e debatiam fluente e confiantemente (em português) com esses visitantes os diversos assuntos tratados nos livros de leitura e outros textos estudados na escola. De fato, havia no ar um novo espirito de transformação!

Após dois anos de estudo na escola e um ano de “intervalo”, os novos professores foram finalmente empregados pelo governo como mestres de alfabetização e leitura nas reservas kaingang. Revolucionou-se rapidamente toda a situação social. Até esse ponto o encarregado oficial, um não-indígena, era essencialmente a suprema autoridade da reserva. Ele nomeava os chefes indígenas, os quais por sua vez nomeavam seus sub-chefes, policiais, etc. Os chefes geralmente falavam mais português que os demais oficiais, e os homens mais que as mulheres e crianças, que muitas vezes eram falantes monolíngües do Kaingang. Os únicos alfabetizados costumavam ser os não-indígenas que trabalhavam nas reservas.

Mas tudo mudou com a estréia dos professores kaingang. Eles costumavam falar a língua portuguesa com mais facilidade que os chefes, e sabiam ler e escrever tão bem como os respectivos oficiais do governo. Além disso, esses novos professores sabiam ler e escrever a língua kaingang, entendiam tudo o que estava acontecendo e tinham a habilidade de conversar livre e confiantemente com qualquer pessoa. Transformou-se toda a infra-estrutura do poder! E esta infra-estrutura ia modificar-se ainda mais, pois todas as crianças iam aprender as mesmas habilidades. As cinco professoras – dentre os 22 professores da primeira turma – tiveram desempenho igual ao dos seus colegas homens.

Hoje (1999) já não se observam os velhos padrões de desespero e passividade. Os Kaingang – uma comunidade de umas 25.000 pessoas – desfrutam vida nova. Os chefes são pessoas alfabetizadas, os oficiais do governo perderam seus postos de poder e se tornaram ajudantes da comunidade. Os primeiros professores, hoje avós, já se aposentaram oficialmente. A Escola “Clara Camarão” treinou apenas três turmas de professores antes de ser fechada, mas os novos professores estão sendo treinados de outras formas. As escolas nas reservas já não refletem os antigos padrões tão desanimadores, sendo antes verdadeiras instituições de aprendizagem. Um crescente número de crianças kaingang continua sua escolaridade no sistema escolar brasileiro. Assim, os novos mestres das escolas primárias são credenciados pelo sistema nacional e também como professores especializados de alfabetização/leitura para seu próprio povo.

Em diversas ocasiões foi questionada a ortografia kaingang. O Brasil tem uma longa tradição de introduzir paulatinamente mínimas mudanças ortográficas na língua portuguesa, resultando numa língua escrita diferente da de Portugal. A língua kaingang emprega as letras portuguesas, mas a pronúncia nem sempre corresponde à dessa língua. Haveria por acaso uma maneira melhor de resolver tais conflitos?

O professores da primeira turma se reuniram na década dos ’70 para debater o assunto, mas eventualmente rejeitaram todas as mudanças propostas, por não constituírem nenhum melhoramento na situação existente. Em 1995 algumas das antigas propostas, em companhia de uma poucas novas, foram colocadas por alguns dos professsores mais jovens. Desenvolveu-se uma possível estratégia para levantamento do assunto entre os professores de todos quatro estados do sul, a ser implementada no ano seguinte. Foi obra dos próprios professores, pois estive presente apenas para colaborar na análise da questão. Foi nessa ocasião que me apresentaram a placa citada no início deste ensaio.

A decisão final foi tomada dois anos depois (1997). No intervalo, a questão ortográfica tinha suscitado ferozes debates em muitas reservas kaingang. Representantes das diversas áreas dedicaram uma noite inteira e muitas horas do dia a uma cuidadosa análise dos prós e contras da questão. Finalmente, tomou-se uma decisão unânime: “Não queremos nenhuma mudança durante os próximos 200 anos.” Doze meses depois, até os professores mais jovens tinham aprendido já a escrever bem a língua, apesar das dificuldades anteriormente experimentadas. Durante o próximo curso especial, organizado pelo governo, os professores de oito reservas apresentaram suas narrativas quase impecáveis, compostas “em casa”. Para mim, o melhor galardão foi observar os rostos radiantes deles ao ouvirem dos bons resultados. Numa das reservas, eu me integrei num grupo de leitores da Bíblia e tive a boa surpresa de ouvir cada um(a) deles/delas ler seu respectivo versículo perfeitamente e sem hesitação – algo que eu não tinha presenciado antes da decisão unânime de ser esta a verdadeira maneira de escrever a língua kaingang.

Está se processando atualmente mais uma importante mudança. Os grupos falam pelo menos quatro dialetos distintos da língua kaingang. Um desses quatro é respeitado por todos eles por ser mais correto que os outros, mas ele contém elementos que são incompreensíveis para os outros e precisam ser adaptados. Os professores rejeitaram, desde o início, o conceito de materiais escritos diferenciados, preferindo uma só norma escrita para todos os dialetos. Foi esta a versão empregada na tradução da Bíblia. Entretanto, a língua continua evoluindo em todas as áreas, com o resultado de que vai se estabelecendo uma forma comum dela, mesmo na fala kaingang. O novo dicionário (a ser publicado em 2000) especifica algumas destas mudanças, sendo as respectivas regras fruto do labor dos professores mais velhos. É fascinante observar este processo!

Pode se colocar a seguinte pergunta ao professor Luís: “De que maneira você vai me provar que é de fato um indígena kaingang?” A resposta dele será: “Tenho um nome kaingang e falo a língua kaingang; e mais, sei ler e escrever essa língua. Temos livros em nossa língua. Ela não se parece com os sons produzidos pelos animais, não; é agora uma verdadeira lingua. De fato, é a mais bela de todas as línguas do mundo.” Veja só o radiante olhar dele!

Saber mais:
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