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Guajá

Nome e língua

Os Guajá se autodenominam Awá, termo que significa "homem", "pessoa", ou "gente". As origens deste povo são obscuras, porém acredita-se que seja originário do baixo rio Tocantins no estado do Pará. Formava, provavelmente junto aos Ka’apor, Tembé e Guajajara (Tenetehara), um conjunto maior, da família lingüística Tupi-Guarani naquela região (Gomes 1988, 1989 & 1991; Balée 1994). Na medida que a expansão colonial foi exercendo uma pressão sobre estes grupos indígenas, houve uma dispersão dos mesmos. Acredita-se que a partir do conflito da Cabanagem, em torno de 1835-1840, este conjunto iniciou uma migração no sentido leste, rumo ao Maranhão. É provável que por volta de 1950 todos os Guajá já estivessem vivendo neste estado, no lado leste do rio Gurupi (Gomes 1989 & 1991).

Localização

Os Guajá em contato permanente vivem no noroeste do estado do Maranhão, nas Terras Indígenas Alto Turiaçu (530.520 ha) e Caru (172.667 ha), ambas já demarcadas e homologadas. Desde 1982 há uma tentativa de estabelecer uma nova área para os Guajá, a TI Awá. A criação desta reserva ligaria a TI Caru à TI Alto Turiaçu, estabelecendo assim um terreno contínuo, em tese menos sujeito às invasões. Além de fornecer mais segurança, esta fusão proporcionaria aos Guajá uma maior área para continuar as suas atividades de subsistência. Serviria ainda como um território próprio, dado que a TI Caru e a TI Alto Turiaçu são compartilhadas com as etnias Ka´apor, Timbira e Guajajara. Acredita-se que alguns grupos Guajá, sem contato, residam nesta área, sendo que sua demarcação estenderia uma proteção maior aos mesmos. Certos trechos da área em questão já se encontram degradadas, além de existirem estradas cortando o terreno. Porém, é de suma importância a demarcação e homologação desta reserva a fim de garantir um futuro mais seguro para os Guajá. O último documento do Ministério da Justiça que trata da demarcação da TI Awá, publicado no Diário Oficial da União de 29 de julho de 1992, estabelece uma área de 118.000 hectares. Todavia, até hoje não foi realizada, dada a pressão dos grandes interesses político-econômicos da região.

Na TI Araribóia, ao sul das TI Alto Turiaçu e Caru, foram avistados outros grupos Guajá pelos Guajajara. Acredita-se, também, que existam outros Guajá dentro da Reserva Biológica Gurupi, adjacente a TI Caru, a oeste. Dentro das próprias TI Alto Turiaçu e TI Caru foram observados mais grupos arredios e acampamentos abandonados, informações estas provindas dos Ka´apor e dos Guajá contatados. Ainda há informações de grupos mais distantes que se movem por uma série de serras e chapadas que ligam os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí, Goiás, Bahia e Minas Gerais. Este eixo, inclusive, tem servido como um refúgio natural para os Guajá e já conduziu alguns indivíduos até Bahia e Minas Gerais. O deslocamento por todas estas extensões demonstra a capacidade dos Guajá de se adaptarem em vários ecossistemas diferentes.

Demografia

O contato não foi uma experiência positiva para os Guajá, que sofreram uma queda populacional significativa. De modo geral, sítios arqueológicos demonstram que a transição para a agricultura traz consigo algumas complicações na medida em que caçadores e coletores se assentam de modo mais permanente, ora por mudança de dieta, ora por doenças contagiosas decorrentes da falta de saneamento e da maior concentração de população. No caso Guajá, a aldeia do Posto Indígena Guajá, situada na TI Alto Turiaçu, sofreu um grande impacto com o contato; feito de maneira desordenada, teve por resultado a redução da população desta aldeia de 91 para 25 indivíduos entre 1976 e 1980. Essa comunidade vem se recuperando lentamente e atualmente tem um população de aproximadamente 60 indivíduos.

Uma conseqüência da queda demográfica entre os Guajá é a disparidade atual entre os sexos. Tanto na aldeia do PI Guajá como na comunidade situada nas vizinhanças do PI Juriti, da TI Caru, existe uma proporção de dois homens para uma mulher em idade reprodutiva. Com esta disparidade, existe atualmente um número expressivo de arranjos poliândricos, constituídos de uma mulher casada com dois ou mais homens, uma solução semelhante à encontrada pelos Suruí do Tocantins para fazer face ao desequilíbrio demográfico logo após o contato. Esta disparidade já foi maior durante os primeiros anos de contato, chegando a uma proporção de três homens para uma mulher nestas duas comunidades. Já nas outras aldeias Guajá, onde existe uma estrutura demográfica mais intacta, os casamentos são geralmente monógamos, embora existam alguns casos de poliginia.

Atualmente existem aproximadamente 230 Guajá situados em quatro comunidades, aldeadas pela FUNAI, na TI Alto Turiaçu (Posto Indígena Guajá) e na TI Caru (Postos Indígenas Awá, Juriti e Tiracambu). Ao todo, não se sabe exatamente o número de Guajá sem contato mas estima-se que não exceda 30 pessoas.
Anteriormente as estimativas referentes a sua população eram maiores; porém, acredita-se que estes cálculos refletissem uma tentativa de captação maior de recursos da FUNAI, pelo Programa Guajá. Ademais, à medida em que o cerco se fechou em torno dos Guajá, mais grupos isolados foram contatados e os que continuam sem contato tornam-se mais vulneráveis às agressões e doenças sem que se saiba de seu paradeiro.

Atividades de subsistência

Os Guajá entraram em contato permanente com a sociedade nacional brasileira a partir de 1973. Especula-se que até então tivessem uma vida nômade, subsistindo da caça de animais silvestres e da coleta de produtos florestais. Possivelmente, os Guajá foram agricultores no passado, até serem obrigados a adotar uma vida nômade por força da pressão sofrida por outros grupos numericamente superiores e mais fortes.

Sob orientação da FUNAI, os Guajá atualmente praticam a agricultura itinerante, empenhando-se em atividades agrícolas semelhantes às práticas dos povoados circunvizinhos às suas reservas. Adaptaram-se rapidamente a esta nova estratégia de subsistência, uma vez que ela representa mais uma opção na sua gama de alimentos. Ademais, o assentamento dos indígenas próximo aos postos da FUNAI se tornou atraente, pois, se o contato interétnico provocou, por um lado, a introdução de doenças e enfermidades, revelou-se, por outro, como uma necessidade face ao acesso a medicamentos para o tratamento. Entretanto, a caça e a coleta não deixaram de contribuir de forma substancial à vida dos Guajá e continua sendo de praxe entre estes o deslocamento para áreas distantes de suas aldeias, rumo a retiros de caça. Embora a dieta Guajá consista mais em calorias advindas de seus produtos agrícolas eles dedicam mais tempo à caça nas suas atividades de subsistência.

Existem muitos cocais da palmeira babaçu (Attalea speciosa, também conhecida na literatura como Orbignya martiana ou O. phalerata) no hábitat geral dos Guajá. A sua alta freqüência na região se deve principalmente ao fato desta palmeira vingar em abundância no processo de sucessão florestal, ou seja, em capoeiras, áreas já utilizadas para roças. O babaçu tem múltiplos usos para os Guajá, sendo que o seu fruto é muito aproveitado por eles tanto em tempos de penúria quanto como suplemento à sua dieta. Antes do contato com a FUNAI, era comum os Guajá acamparem às proximidades destes cocais para coletar seus frutos, cujas amêndoas e entrecasca são ricas em óleos e proteínas, e praticar a caça.

Além dos produtos de seus plantios, um outro item que se acrescentou à gama de alimentos dos Guajá foi a pesca. Antes de estabelecerem contato permanente, habitavam áreas mais próximas às cabeceiras de rios, de modo que a pescaria não rendia muito para eles. Hoje em dia, estão situados às margens dos principais rios do Maranhão (Pindaré, Caru e Turiaçu), o que lhes permite uma melhor utilização dos recursos ribeirinhos e lacustres.

Outro fator que tornou atrativa a agricultura foi a possibilidade de evitar a fome no período de escassez, coincidente com a estação chuvosa. Um estudo antropométrico, por exemplo, revelou que uma das comunidades, situada na TI Alto Turiaçu, exibiu um teor de gordura mais elevado durante a estação chuvosa do que na época da estiagem. Isto porque os Guajá desta aldeia consumiam muita farinha de mandioca junto com os frutos, ricos em óleo e proteína, da palmeira silvestre bacaba (Oenocarpus distichus). Por outro lado, os Guajá podem se tornar menos ativos durante a estação chuvosa, uma vez que eles agora contam com os seus produtos agrícolas. Além de mandioca, arroz, milho, batata doce, cará, banana, melão, melancia, feijão, jerimum, colhidos em suas roças, os Guajá ainda têm acesso a frutas (manga, banana, laranja, cacau, maracujá e outros) cultivadas nos pomares da FUNAI.

Organização social

Ao longo de sua vida, tanto um homem quanto uma mulher podem ter vários matrimônios sucessivos. Não existe um tipo de casamento preferencial, embora alguns antropólogos acreditem que o sistema de parentesco entre os Guajá represente o modelo dravidiano, onde o arranjo matrimonial preferido seria entre primos cruzados. Porém, subseqüentes observações revelam que não é este o tipo de organização social dos Guajá. Talvez esta especulação deva-se ao fato de alguns termos referenciais de parentesco entre os Guajá parecerem semelhantes aos de outros grupos Tupi-Guarani na Amazônia Oriental, abrangendo os Ka´apor, Tembé e Guajajara (Tenetehara), que por sua vez formavam, com os Guajá, um conjunto maior, como dito anteriormente. Fica, no entanto, difícil reconstruir o parentesco distante dos Guajá, uma vez que estes indígenas se dispersaram e ficaram reduzidos a meros fragmentos de sua população original.

Antes do contato com a FUNAI, supõe-se que os Guajá exploravam as matas do Maranhão em grupos de cinco a trinta pessoas. Houve indivíduos que andaram por terras extremamente distantes de seu hábitat original como no caso de dois índios que foram encontrados na Bahia e em Minas Gerais, respectivamente. Um destes casos foi matéria de notícia na TV Cultura de Belém (Pará). Trata-se do índio Guajá Karapiru, que sofreu emboscada de fazendeiros, junto à sua família, no Maranhão, e foi obrigado a fugir para as matas sozinho, onde sobreviveu durante dez anos, até ser encontrado às margens de uma fazenda, no estado da Bahia.

A frente de atração da FUNAI fez com que muitos grupos Guajá desconhecidos ficassem aldeados juntos, o que possivelmente transformou a organização social entre eles. É permitido o casamento entre primos cruzados, embora a restruturação social dos Guajá favoreça, preferencialmente, o casamento entre pessoas de grupos não relacionados. Neste sentido, talvez seja mais apropriado compreender a prática do casamento atual entre os Guajá como uma forma de "aliança" entre grupos que outrora exibiam uma certa tensão. Em alguns casos, a própria FUNAI serviu de intermediadora de casamentos entre pessoas de aldeias diferentes. Além disso, desde que as hostilidades entre os grupos Guajá e Ka’apor foram apaziguadas pela FUNAI, na década de 1970, a interação entre estes povos tem sido de natureza amistosa, tanto que existe, atualmente, um casamento entre um homem Guajá, da aldeia do PI Guajá, com uma mulher Ka’apor, da aldeia Urutawy, ambas da TI Alto Turiaçu. Também sob influência da FUNAI, um outro índio Guajá teve dois casamentos com mulheres brancas oriundas de povoados circunvizinhos da TI Caru. Neste último caso, o índio em questão alegava ter "vergonha" de ser índio e ter preferência particular por mulheres não indígenas.

Religião

Na esfera religiosa dos Guajá, há uma participação complementar entre o homem e a mulher. É o que se evidencia no cerimonial de "viagem para o céu" (ohó iwa-beh). Esta cerimônia é praticada durante o período da estiagem nas noites de lua cheia. O homens se preparam para embarcar nesta viagem com a assistência de suas mulheres que os adornam com a plumagem de aves. Mais tarde, os homens dançam e cantam ao redor de uma takaia (uma variante deste termo, tocaia, foi tomada da língua geral, que era tupi, pelo português, com o significado de construção para emboscadas e outras finalidades), construída no descampado da aldeia. Entram individualmente na takaia, em cujo interior continuam cantando até se impelirem para o céu com o forte bater de seus pés. Quando os homens penetram o céu, lá se encontram com os seus antepassados e outras entidades espirituais. Eles interagem com estas entidades e efetuam um "câmbio" de espíritos para retornar a terra. Ao retornarem, os homens descem "incorporados" e dançam em direção às suas mulheres e outros familiares. Dialogam com elas através do canto e "benzem" os seus familiares com sopros. Em seguida, as suas mulheres solicitam a presença de outros espíritos e, assim, os homens voltam ao céu para trazer outras entidades. As mulheres têm uma participação ativa neste processo: embora não façam a "viagem para o céu", elas comandam o evento solicitando de seus maridos que tragam determinadas entidades para consultas e curas. O homem serve como uma espécie de veículo e elo entre o mundo dos espíritos e a terra.

Situação atual

Embora o tratamento médico ministrado pela FUNAI vise prevenir as doenças contagiosas e enfermidades ocasionadas pelo contato, como a gripe, a pneumonia e a malária, o atendimento carece de um conhecimento maior da etnomedicina destes indígenas. O contato interétnico exige uma sensibilização maior para com a cultura indígena, principalmente no tocante a sua visão de doença, saúde, morte e cura. Seus interlocutores teriam que assumir uma responsabilidade maior no sentido de conhecer a língua Guajá para efeitos de compreender melhor estes conceitos e ministrar sua saúde com mais competência. Paralelamente, deveriam encorajar mais pesquisas básicas que proporcionariam mais informações tanto na área de saúde como em outros aspectos da vida Guajá. E ao cuidar da saúde Guajá deveria-se tratar as pessoas convalescentes com mais respeito. Caso contrário, as doenças introduzidas continuarão a assolar os Guajá, uma vez que a saúde implica na habilidade destes indígenas de praticar suas atividades de subsistência, ou seja, na caça, coleta e roça; o desempenho destas exige um esforço físico constante.

Outro problema que implica na segurança dos Guajá é a constante presença de invasores em suas áreas. O desmatamento dentro das Áreas Indígenas Alto Turiaçu e Caru, além da presença de caçadores ilegais, tem reduzido a disponibilidade de terra e caça. Outro fator importante que afastou a caça dos Guajá é a ferrovia Carajás que corre na margem sul da TI Caru. A ferrovia atraiu um grande número de migrantes, que criaram várias povoações ao longo do seu percurso, e estimulou assim invasões nas áreas indígenas adjacentes. Além disso, o barulho emitido pelos trens da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), a empresa administradora do Projeto Grande Carajás (PGC), é ouvido a longa distância, afastando os animais de caça. O PGC, ao longo de sua ferrovia, afeta, direta e indiretamente, nada menos que 40 comunidades indígenas (Treece 1987).

Na virada do milênio, os Guajá estão sujeitos a um futuro incerto, já que o cerco se fecha cada vez mais e os interlocutores da FUNAI não possibilitam parcerias que outrora poderiam acolchoar o impacto do contato interétnico. Recentemente, os Guajá foram tirados da categoria de "índio isolado" e, atualmente, encontram-se na situação mais comum do indígena brasileiro. Ou seja, são considerados índios "em contato", o que implica na redução de apoio especial que a FUNAI proporciona àquela primeira categoria. Além disso, o convênio entre a FUNAI e a CVRD que outrora prestava um apoio especial nas áreas de saúde, educação, segurança e atividades produtivas já se esgotou, retirando assim um amparo essencial aos Guajá e outros grupos indígenas situados ao longo da ferrovia Carajás. No momento, a CVRD continua prestando apoio, porém mais na forma de pequenos atos caridosos, como remessas intermitentes de remédios. Tais ações não se somam a um compromisso, programa ou mecanismo substancial que vise garantir e manter o bem estar das comunidades indígenas na esfera de influência do seu Projeto Grande Carajás. Entretanto, as relações forjadas entre os Guajá e a FUNAI estabeleceram uma assimilação forçada e assimétrica entre eles, criando uma hierarquia autoritária e paternalista. Além disso, esta hierarquia está gerando desigualdades entre os próprios indígenas. A FUNAI favorece certos indivíduos em detrimento de outros a fim de estabelecer um controle maior na comunidade. Deste modo, criam-se lideranças que são mais beneficiadas com bens materiais e atendimento médico. Quanto à igualdade que existia entre os sexos, a mesma está se minguando, visto que a FUNAI interage mais com os homens Guajá, excluindo as mulheres nas tomadas de decisão.

Nota sobre as fontes

As informações mais antigas sobre os Guajá, indiretas e anteriores ao contato, foram resumidas pelo etnólogo Curt Nimuendaju num texto publicado no 3º volume do Handbook of South American Indians em 1949. Uma vez contatados, esteve entre eles o etnólogo Mércio Pereira Gomes, obtendo dados que estão divulgados no seu livro Os Índios e o Brasil (1988), num artigo incluído no volume Povos Indígenas no Brasil (1987/1990), do antigo CEDI (hoje incorporado ao Instituto Socioambiental), e num texto mimeografado. O etnólogo Louis Carlos Forline, autor deste verbete, realizou várias etapas de pesquisa de campo junto aos Guajá, entre 1991 e 1994, num total de aproximadamente dezoito meses. De sua pesquisa resultaram sua tese de doutoramento, The Persistence and Cultural Transformation of the Guajá Indians, aprovada na Universidade da Flórida em 1997, e vários artigos sobre contato interétnico, atividade coletora, introdução da agricultura e relações de gênero.

Informações complementares podem ser encontradas na tese de doutorado e no livro Footprints in the Forest (1994) do etnólogo William Balée, que têm por tema os índios Ka’apor, vizinhos dos Guajá, e no livro de Dave Treece, Bound in Misery and Iron (1987), que versa sobre o impacto do Programa Grande Carajás sobre os indígenas.
Louis Carlos Forline
Universidade Federal do Pará
e Museu Paraense Emílio Goeldi
Fevereiro de 1999

Pour en savoir plus sur les Awá, sur le site Survival