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ANAMBÉ

Nome e língua

A língua Anambé é da família Tupi-Guarani. Nos anos 80, todos os Anambé com mais de 40 anos eram falantes da língua indígena e quase todos os que estavam na faixa de 20 a 30 anos a entendiam, mas usavam correntemente o português.

Localização

Vivem no alto curso do rio Cairari, um afluente do Moju, que corre paralelo ao baixo rio Tocantins, pela sua margem direita. Estão na Terra Indígena Anambé, com 7.882 hectares, homologada e registrada, situada no município de Moju, PA.

População

Em 1940 eram 60 indivíduos. Mas a população decrescia, por motivo da saída de mulheres que se casavam com regionais e sucessivas epidemias de sarampo. A partir de meados da década de 60, a população Anambé começou a se recuperar; além disso, ao contrário do que acontecia anteriormente, os casamentos interétnicos passaram a atrair o cônjuge não-índio para dentro da Terra Indígena. Os levantamentos realizados em 1983 e 1984 pelo CIMI e pela FUNAI, respectivamente, são divergentes, talvez devido à grande mobilidade da população (por exemplo, entre abril e dezembro de 1982, 12 famílias Anambé, num total de 30 a 35 pessoas, foram transferidas para a TI Alto Rio Guamá e de lá retornaram para a região de origem). Segundo o CIMI, havia então 61 pessoas na TI Anambé, entre índios e não-índios e 11 indígenas dispersos nas vizinhanças e cidades da área. Segundo a FUNAI, havia 20 Anambé na TI (e mais 12 não índios), nas vizinhanças moraram 4 Anambé casados com não-índios e mais 8 constituintes de suas famílias que deveriam ser os filhos desses casamentos interéticos, famílias essas que estavam se preparando para entrarem na TI; duas mulheres Anambé em Mocajuba, e um filho de mulher Anambé, um Anambé funcionário da FUNAI em Itaituba, e outros dispersos pelo rio Cairari e Moju. Nenhum dos dois levantamentos permite chegar a um total de índios Anambé. Dados da FUNAI de 1996 dão um total de 118 habitantes na TI Anambé, sem distinguir índios de não-índios.

História do contato

Os índios Anambé viviam no passado a oeste do rio Tocantins, nas cabeceiras do rio Pacajá, que desemboca no rio Pará (braço do estuário do Amazonas que corre pelo sul de Marajó), perto de Portel. Segundo relato tomado de um líder Anambé pelo pesquisador Fereira Pena, em 1884, viviam desde muito tempo nas cabeceiras do Pacajá, obedecendo a um líder oriundo do ocidente, sábio e guerreiro. Os brancos lhes vieram fazer guerra; depois, os jesuítas, que com eles mantinham a paz, começaram a separar as mulheres dos maridos e a levar muitos para Portel, os homens para trabalhar nas roças e remar, as mulheres para lavar roupa e cozinhar. Isso os desgostou muito, levou-os a desobedecer ao chefe e a separarem-se. Índios antropófagos lhes vieram fazer a guerra e eles retiraram-se para as cabeceiras do rio Cururuí, um afluente do Pacajá, formando a aldeia de Tauá, donde depois foram para o lugar onde o diretor de índios quis aldeá-los. De fato, em 1852, uma parte dos Anambé se aproximou da margem esquerda do Tocantins, pediu proteção e se aldeou junto ao distrito de Baião. Os outros continuaram no alto Pacajá. Estes, em 1874, depois de uma guerra contra os indígenas chamados "Curumbu", ficaram reduzidos a 46 indivíduos; no ano seguinte morreram mais 37 de varíola. Os restantes foram juntar-se aos Anambé que se haviam aldeado junto ao Tocantins. As Anambé passaram a viver então nas proximidades da cidade de Baião, nas ilhas dos Santos e de Tauá. Até o final dos século XIX os Anambé oscilaram entre o Tocantins e o Pacajá e em algum momento atravessaram para a margem oriental do Tocantins, indo para a bacia do rio Moju.

As primeiras informações sobre os Anambé na bacia do Moju ora os confundem com os Turiwara, ora com os Amanayé. Conforme narraram ao antropólogo Napoleão Figueiredo, nas cabeceiras do Moju entraram com os Gaviões do Oeste, que dali os expulsaram, obrigando-os a se deslocando na direção do Cairari. A princípio foram os únicos habitantes do alto Cairari, mas a partir dos meados do século XX começaram a entrar nessa área madeireiros e extratores de balata. A princípio os Anambé não foram engajados no trabalho da madeira, atuando mais como fornecedores de peles, carne de caça e farinha. Nos anos 70, alguns Anambé participavam nas turmas de madeireiros como trabalhadores diaristas, enquanto outros negociavam a madeira com um regatão, que era relacionado à mesma serraria. Mas a sua participação nos trabalhos da madeira era intermitente, e se tornou apenas ocasional na década seguinte.

Modo de vida

Os Anambé perderam a maioria dos elementos culturais indígenas externos e seu modo de vida se assemelha ao dos sertanejos da região. Suas habitações são do tipo regional, com cobertura de palha ou de cavacos. Salvo pequenos cestos de carga, abanos, peneiras de trançado em espiral, fusos, pilões, ubás, arcos e flechas, todo o equipamento utilizado pelos Anambé é adquirido no comércio. Há umas quatro gerações fazem casamentos interétnicos com os regionais e os cônjuges não-índios e os filhos dessas uniões se integram à vida na aldeia. Nos anos 80, um antigo líder, talvez o único conhecedor das antigas tradições e dos cânticos indígenas tinha uma posição de prestígio, mas a liderança era exercida por um jovem com experiência na vida urbana, escolhido por ter maiores facilidades no trato com os regionais.

Os Anambé contaram a Napoleão Figueiredo que nos anos 40 foram levados até Belém e lá batizados, tendo como padrinho de todos eles o então governador Barata. A partir dos anos 60 passaram a batizar os filhos em Mocajuba, cidade para a qual se deslocam na festa da padroeira. Também mantêm contato com os pentecostais da Vila Erlim, próxima da aldeia. Sua mitologia sofreu influência tanto católica como evangélica e a figura do pajé já desapareceu faz muito tempo.

Os Anambé deixaram de comerciar o óleo de copaíba e o leite de maçaranduba, como faziam nas décadas de 50 e 60. E retiram madeira apenas quando necessitam uma quantia maior de dinheiro. Vendem regularmente os excedentes de suas roças (milho, arroz, farinha de mandioca), e eventualmente carne de caça, seja aos regatões que vão até a aldeia, ou diretamente em Mocajuba. Além da agricultura, outras atividades servem de suporte à subsistência: a caça, feita em grupo pelos homens, com o uso de espingardas, complementada pela apanha de jabutis pelas mulheres e crianças, se exerce sobre uma fauna hoje ameaçada pelos desmatamentos feitos por fazendas e serrarias; a pesca, realizada, com anzóis e linha, arco e flecha, sobretudo na estação seca, quando se recolhem também tracajás; e a coleta de frutos e mel.

Aspectos contemporâneos

Até os anos 80, os Anambé nunca tiveram assistência direta da FUNAI, como também não tivera anteriormente do SPI. Não tinham um posto indígena, não tinham nenhuma assistência à saúde. Usavam plantas medicinais silvestres e, nos casos graves, procuravam a casa de uma pessoa amiga em Mocajuba, que os encaminhava para o hospital. Em 1984, o CIMI iniciou a construção de uma escola, que teria ajuda do vigário de Mocajuba e, como professor, um regional casado com uma mulher Anambé.

A primeira atuação da FUNAI na área, nos levantamentos destinados a delimitar a Terra Indígena Anambé, resultou na proposta de transferir os Anambé para a a TI Alto Rio Guamá, tendo em vista a invasão e depredação dos recursos naturais da primeira, e o fato de a segunda já estar demarcada, ser ampla e ser habitada por índios de cultura semelhante, como os Tembé. Os Anambé deveriam ocupar a ponta noroeste dessa TI, no igarapé Tauari, que corre para o Guamá. Entretanto, essa era uma área invadida, e a FUNAI não retirou os invasores antes da chegada dos Anambé, em 1982, que também não gostaram dela, por ser pobre em caça, pesca e água boa. No conflito entre os Anambé e os invasores, morreram dois destes. Os Anambé não quiseram aí permanecer e retornaram no mesmo ano para o Cairari.