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Sou O Que Sou : Índio!



 

            Vi muitas pessoas postarem-se diante de mim, um índio, e, ficarem horas a olhar-me. Além de me lançarem uma série de perguntas, entre elas, se não existe mais índio “brabo”...

            Penso comigo: o que estarão elas pensando? Esforço-me para penetrar em seus pensamentos. Afinal, um descendente de “índios selvagens”, descendentes de seres mitológicos, índios, está postado diante deles, de calças, camisa e sapatos. Neste momento, a imaginação desse povo simples voa pelo mundo de fantasia.

            Como será que vivem? O que comem? Será descendente de comedores de gente? Terá ele provado alguma carne humana? Tem ele algum sentimento humano de amor e compaixão?

            Enfim, percebo que as interpretações e comparações que nos fazem não passam da categoria de animais exóticos que habitam a selva. Tenho vontade de fazê-los compreender meu mundo, assim como cheguei a compreender o mundo deles...

            Gostaria de dizer-lhes que faço parte de uma sociedade que possui normas de vivência harmônica entre os homens e a natureza. Gostaria de dizer-lhes que possuímos nossos valores sociais, políticos, econômicos, culturais e religiosos, que adquirimos através dos tempos, de geração em geração...

            Gostaria de dizer-lhes que formamos um mundo equilibrado e justo de relações humanas. Dizer que como humanos, somos sujeitos à falhas e erros. Dizer que nossos sentimentos mais íntimos são exteriorizados através da arte, da língua, da nossa religião, das festas acompanhadas de ritos e cerimônias...

            Dizer que conseguimos nossa experiência diante da vida e do Universo. Dizer que conseguimos chegar num equilibrado mundo prenhe de valores que transmitimos a nossos filhos, o que, em outras palavras mais compreensíveis, é sinônimo de educação.

            Gostaria de dizer-lhes também que tudo isso vem sendo deturpado, desrespeitado e destruído. Dizer que estamos despertando para uma nova realidade. Estamos percebendo que todas as tentativas estão sendo feitas para acabar com nossos princípios já constituídos.

            Dizer que um dos nossos objetivos fundamentais é levar as nossas comunidades, o conhecimento dessa realidade nova que nos rodeia. Do interesse em perpetuar nossos valores morais e culturais...

            Dizer que estamos prontos para receber o que de útil a sociedade deles nos oferece e rechaçar o que de ruim ela nos apresenta.

            Mas, a cegueira etnocêntrica não permite esse diálogo franco e sincero!


 

Daniel Matenho Cabixi – É líder e Escritor Indígena do Povo Pareci do Estado de Mato Grosso.
Texto feito durante um encontro sobre educação indígena em Cuiabá, MT, em Agosto de 1993.