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Micaretas
Carnaval fora de época


JF Folia, em Juiz de Fora



Jorge Ben Jor já dizia, em uma de suas mais famosas canções (País tropical), que fevereiro é mês de carnaval. Se fosse composta nos dias de hoje, a letra da música, certamente, teria de ser adaptada. Derivadas da maior festa popular da Bahia, as micaretas espalharam-se pelo Brasil e garantem a alegria dos fãs o ano todo.

A fascinação pelas festas é tão grande que os mais fanáticos fazem da programação dos eventos uma espécie de calendário paralelo.

– As principais micaretas têm mais ou menos as datas definidas, dá para se planejar – comemora o estudante Bruno Gomes Chung Nin, de 23 anos, que, apesar da descendência oriental, é carioca da gema. E baiano de alma. – Não há um dia em que eu não escute música baiana.

Fã da banda Chiclete com Banana, Bruno lembra da primeira experiência no métier, em 2001.

– Foi na Cabofolia. Depois de lá, não parei mais – gaba-se.
E não parou mesmo. Em cinco anos, o estudante acumulou cerca de 120 abadás e não pretende estagnar a coleção. Ele já está se preparando para o carnaval de Salvador e até convenceu a namorada, Maiara, a acompanhá-lo.

– No início ela não curtia muito, só gostava de rave – lembra. – Mas, depois que a levei para a gravação do DVD do Asa de Águia, mudou um pouco e admitiu que não dá para ficar parada nesses eventos.

Maiara pode até ter revisto seus conceitos musicais, mas a possibilidade de o companheiro ficar à solta atrás do trio elétrico deve ter influenciado a decisão. A azaração é um dos pontos fortes das micaretas.

– Já cheguei a ficar com 50 meninas numa tarde só – jura Bruno. – Há realmente um clima de pegação que não existe em outras festas. Tem muita gente que nem curte a música, só vai pela guerra. Mas eu não sou assim. Já fiquei sozinho por opção, só curtindo o show.

Como todo micareteiro que se preze, Bruno já fez loucuras para prestigiar um evento.

– Em 2003, falei para minha mãe que ia a um encontro de designers famosos, em São Paulo. Na verdade, fui para a Trivela do Asa – revela o rapaz, que cursa Desenho Industrial na PUC-Rio.

Em alguns casos, as micaretas passam de brincadeira para coisa séria, tornando-se até profissão. Foi o que aconteceu com Cláudio Silva Reis, de 30 anos. Figurinha carimbada em todos os eventos de música baiana, o carioca foi chamado para trabalhar na Zoar, empresa que organiza excursões para os roteiros da folia.

– Virei guia – brinca Cláudio, que começou a freqüentar micaretas aos 16 anos. Na época, conta o agente, os eventos não eram tão divulgados como os de hoje.

– No início, sofri um pouco de preconceito porque as pessoas não faziam a menor idéia de o que era uma micareta. Mas todos os que me criticavam deram o braço a torcer – vangloria-se Cláudio, que, além de abadás, possui um acervo invejável de fotos tiradas com os ídolos, entre eles, Cláudia Leite (vocalista do Babado Novo) e Bell Marques (do Chiclete com Banana):
– Só falta a do Durval (Lélis, vocalista do Asa de Águia). O empresário Dan Ajdelsztajn, de 37 anos, tem história parecida. De tanto freqüentar os eventos, decidiu abrir uma agência de viagem voltada para o segmento.

– Na época em que era um simples folião, havia duas ou três companhias que faziam esse tipo de serviço – lembra Dan, proprietário da Carnafolia, aberta em 1996. – Percebi que existia uma brecha no setor e montei meu negócio.

Onze anos depois, a empresa está consolidada e conta com seus clientes fiéis. O empresário admite, porém, que o boom das micaretas fez com que a concorrência, nem sempre correta, aumentasse.

– Hoje tem de tudo por aí. Tem muito picareta sem know-how organizando excursões. Mas também há empresas sérias – diz Dan.

Outro ponto abordado pelo empresário é opinião também dos micareteiros mais ortodoxos: o público das festas está em uma fase de mudança. E Dan torce para que seja passageira.

– Micareta virou modinha. Foi o mesmo fenômeno que ocorreu com o baile funk um tempo atrás – acredita. – Muitas pessoas que não curtem axé vão só pela azaração ou para dizer que foram. Mas não há preconceito. Todos são bem-vindos e quem tem a música baiana na veia continua comparecendo.


Festa teria começado há quase 70 anos

Há controvérsias quanto ao surgimento da micareta no Brasil. A versão mais difundida é que a primeira teria acontecido no município baiano de Feira de Santana, em 1937.

Na ocasião, fortes chuvas impediram que as festas de carnaval fossem realizadas na cidade. Inconformados com a situação, moradores decidiram, então, organizar, duas semanas depois da data original, o carnaval na região.

A denominação micareta é uma derivação do francês mi-carême, que se referia às animadas comemorações celebradas durante o período da quaresma, no país europeu.

A influência de dois personagens foi, no entanto, fundamental para a massificação e para a atual configuração da festa, hoje celebrada país afora. Em 1950, os músicos Dodô e Osmar apresentaram-se num carro velho equipado com alto-falante pelas ruas de Salvador e fizeram muito sucesso.

No ano seguinte, a dupla ganhou a companhia de Armandinho na percussão e percorreu a capital baiana, arrastando os foliões. Foi o surgimento do trio-elétrico, que hoje conta com uma enormidade de aparatos tecnológicos e acústicos.

A estrutura do Tironossauro Rex, trio do grupo baiano Chiclete com Banana, por exemplo, conta com camarim com ar-condicionado e computadores conectados a internet em seu interior.



Bruno Gomes e sua coleção de cerca de 120 abadás: paixão pela folia.

Principais micaretas:

Janeiro:
Pré-Caju (Aracaju, SE)
Cabo Folia (Cabo Frio, RJ)

Fevereiro:
Carnaval de Salvador

Março:
Carnaporto (Porto Seguro, BA)

Abril:
Axé Brasil 2006 (Belo Horizonte, MG)
Miconquista (Vitória da Conquista, BA)
Micarande (Campina Grande, PB)

Maio:
Folianópolis (Florianópolis, SC)
Micarina (Teresina, PI)

Junho:
Uberlândia Fest Folia (Uberlândia, MG)

Julho:
Cuiafolia (Cuiabá, MT)
Palmas Folia (Palmas, TO)
Macapá Folia(Macapá, AP)
Fortal (Fortaleza, CE)

Agosto:
Carnabelô (Belo Horizonte, MG)
Micarecandanga (Brasília, DF)

Setembro:
CarnaGoiânia (Goiânia, GO)
PetrôPiro (Petrópolis, RJ)

Outubro:
JF Folia (Juiz de Fora, MG)
Teófolia (Teófilo Otoni, MG)
Carnalfenas (Alfenas, MG)
Carna Rio Preto (Rio Preto, SP)

Novembro:
Vital (Vitória, ES)
Paráfolia (Belém, PA)

Dezembro:
Carnatal (Natal, RN)
Niterói Folia (Niterói, RJ)


Sites de agências especializadas:

- Carnafolia
- Zoar
- Sapojoe
- Micaretando



Glossário:

Trio elétrico – Caminhão iluminado e com potentes caixas de som que leva os artistas. É um palco ambulante.
Abadá – Camiseta que garante a entrada nos blocos.
Pipoca – Onde fica aglomerada a galera que não tem abadá. Apesar de não permitir que siga o trio de perto, é possível curtir bons momentos dos shows e o melhor: é de graça nos eventos abertos.
Cordeiros – São os seguranças dos blocos. Além de não permitirem a entrada de pessoas sem abadás, também são os responsáveis por fazer a massa correr atrás do trio.
Bandana – Acessório muito comum em micaretas. Além de usadas na cabeça, também é comum encontrá-las amarradas nos braços dos homens.

18/10/2006, Luiz Thiago, JB Online