
Língua que dá samba
Especialistas analisam música que a Mangueira levará a Sapucaí, homenagem ao idioma português que faz referências a Olavo Bilac e Fernando Pessoa
Monique Cardoso escreve para o “Jornal do Brasil”:
É quase um milagre um país grande como o Brasil, com tamanha mistura de
raças e culturas, falar um único idioma. Apesar dos neologismos,
estrangeirismo e do internetês, a língua portuguesa sobrevive e mantém o
lirismo herdado da carta de Caminha.
O idioma, que traz palavras únicas no mundo, como saudade e luar, promete
levantar a nação mangueirense na Marquês de Sapucaí no domingo de Carnaval, quando a Estação Primeira passar.
Seu rimado enredo,
Minha pátria é minha língua,
Mangueira meu grande amor.
Meu samba vai ao Lácio
e colhe a última flor,
foi capaz até de desarmar - e apaixonar - acadêmicos e intelectuais, que costumam tapar os ouvidos aos sambas da avenida.
“Milhares de brasileiros, portugueses, africanos e integrantes da
comunidade lusófona, nas arquibancadas, nas telas das TVs e via internet
terão a sua emoção mobilizada na direção do idioma comum, elo de
identificação e de aproximação”, vibra o acadêmico Domício Proença Filho,
que desfila no carro da Academia Brasileira de Letras e se acabou no ensaio
técnico no sambódromo.
A convite do JB, Proença e outros amantes do idioma de Camões analisaram o samba da verde-e-rosa. Todos destacam a oportunidade de popularizar a
história do português, falado por cerca de 250 milhões de pessoas no mundo.
“Louve-se a idéia de focalizar a língua portuguesa numa situação de prazer,
descontração e poderoso envolvimento, como o Carnaval”, elogia a
coordenadora do doutorado em português da Uerj, Maria Teresa Pereira. “A
língua pátria chega rapidamente aos corações e mentes, na cadência de um
samba.”
Composto por Lequinho, Junior Fionda, Aníbal e Amendoím, o samba-enredo pergunta logo de cara "Quem sou eu?".
“É provável que essa mesma pergunta tenha sido feita toda vez que o jogo
entre semelhanças e diferenças instigou, causou conflito ou surpreendeu
falantes com passado comum, desde a primeira estação, no Lácio, região da
atual Itália, até a Estação da Luz, em São Paulo”, sugere o professor de
Letras da UFRJ, Afrânio Gonçalves.
Um dos responsáveis pela montagem do Museu da Língua, na Estação da Luz, em
São Paulo, e especialista em línguas indígenas, o professor Aryon
Rodrigues, da UnB, adorou o neologismo “tupinambrasileirou”:
“É uma referência muito criativa ao tupi e ao tupinambá. Agora poderemos
afirmar que foi por essa “tupinambrasileiração” que costumamos dizer que
comemos mingau e não papas.
Considerado informativo por todos os consultados, o samba traz referências
aos grandes poetas, como Olavo Bilac ("Fui ao Lácio e nos meus versos canto
a última flor"), Fernando Pessoa, lembrado por Caetano Veloso ("A minha
pátria é minha língua"), Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito ("Às folhas secas caídas de Mangueira").
“A intertextualidade é riquíssima”, comenta a coordenadora de Português do Colégio Santo Inácio, Regina Carvalho. “Clareza assim para falar da língua
só encontrei em Saramago.”
A professora aproveita para acrescentar um dado histórico. O português,
diferentemente do que imortalizou Bilac, não é a "última flor do Lácio", ou
seja, a última língua derivada do latim.
“É o romeno. Mas o samba não errou. Na época do Bilac não se sabia disso.
Romeno só foi classificado como latino no século 20.”
Mesmo com o belo tributo à língua, o desfile da Mangueira não estará
completo. Faltará a voz brasileira e indefectível de Jamelão - que, por
problemas de saúde, não puxará o samba este ano.
A letra do samba 'Minha pátria é minha língua, Mangueira meu grande amor.
Meu samba vai ao Lácio e colhe a última flor':
Quem sou eu
Tenho a mais bela maneira de expressar
Sou Mangueira...uma poesia singular
Fui ao Lácio e nos meus versos canto a última flor
Que espalhou por vários continentes
Um manancial de amor
Caravelas ao mar partiram
Por destino encontraram o Brasil...
Nos trazendo a maior riqueza
A nossa língua portuguesa
Se misturou com o tupi, tupinambrasileirou
Mais tarde, o canto do negro ecoou
Assim a língua se modificou
Eu vou dos versos de Camões
Às folhas secas caídas de Mangueira
É chama eterna, dom da criação
Que fala ao pulsar do coração
Cantando eu vou
Do Oiapoque ao Chuí ouvir
A minha pátria é minha língua
Idolatrada obra-prima te faço imortal
Salve... Poetas e compositores
Salve também os escritores
Que enriqueceram a tua história
Ó meu Brasil
Dos filhos deste solo és mãe gentil
Hoje a herança portuguesa nos conduz
Na Estação da Luz
Vem no vira da Mangueira vem sambar
Meu idioma tem o dom de transformar
Faz do Palácio do Samba
uma casa portuguesa
É uma casa portuguesa com certeza
Compositores: Lequinho, Junior Fionda, Aníbal e Amendoím
Jornal do Brasil, 11/2/07