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Quelques articles que j'ai trouvé importants d'être mis en valeur...

- O livro resiste, José Sarney - Elio Gaspari, há alguns anos, escreveu que duas coisas jamais desapareceriam: o livro e o jornal. Eles venceriam todas as tecnologias de informação e com elas disputariam o seu espaço. Li, ontem, em Clóvis Rossi, que a crise dos jornais fez parte da agenda do Fórum Econômico de Davos, com a conclusão de que ainda não é hora do suicídio. Eterna vida. - A Folha de São Paulo, 26/1/07

- O gato comeu, Lya Luft - Momento de reflexão com várias indagações da autora, que nos levam a pensar e refletir sobre nosso papel de cidadãos diante de uma situação ainda caótica politicamente no país, e o vislumbre do "esquecimento" em um próximo carnaval. - Leia o artigo - Veja - Edição 1942 - 8 de fevereiro de 2006

- Alto funcionário do governo francês se diz preocupado em relação ao futuro da língua francesa no Brasil
(Le NFP, Y. Le H.) – Na abertura do 8º Colóquio anual da Aliança Francesa de São Paulo, realizado há duas semanas, o adido cultural do Consulado da França, Jean-Paul Rebaud, falou sobre a situação tanto promissora quanto preocupante da língua francesa no Brasil.
O sucesso do evento é um claro sinal do interesse que o francês está despertando na população brasileira. “Tivemos uma presença de quase 250 inscritos. Dez por cento a mais do que no ano anterior”, contabilizou Hervé Salaun, diretor pedagógico da Aliança Francesa de São Paulo.
Mas é preciso admitir que os esforços das autoridades diplomáticas francesas para convencer os dirigentes brasileiros a ampliarem. O ensino de francês nas escolas públicas não têm encontrado o sucesso desejado. Isso poderia ser interpretado como um fracasso da língua francesa frente à ofensiva espanhola. No ano passado, o governo federal decidiu que o espanhol será ministrado nas escolas brasileiras. O idioma é uma das duas línguas oficiais do Mercosul, bloco geopolítico e econômico em fase de crescimento, enquanto a bela língua francesa é falada apenas na Guyana Francesa na região Sul-Americana.
Não é a primeira vez que Jean-Paul Rebaud procura abrir os olhos da comunidade universitária sobre as dificuldades pelas quais o ensino do francês está passando. Entretanto, considera que o Ano da França no Brasil, programado para 2008, pode ser aproveitado como um gancho par dar uma visibilidade maior à língua e fazer operações de marketing em torno do idioma. Ele lembrou que “o ensino do francês está no coração das relações entre a França e o Brasil”.
Nouveau Franc-Parler - mars 2006

- Un article écrit par Anne Zielke, paru dans un journal allemand (Süddeutsche Zeitung - Magazin Nr.20 - 20.5.2005) qui peut vous aider à comprendre le Brésil:

Construído sobre Areia

A Terra gira em torno do sol, mas o Brasil gira em torno da praia. Quem quiser entender o país deve, por isso, esquecer o guia turístico e levar a roupa de banho.
Helô Pinheiro tinha dezesseis anos e ia todos os dias à praia. Do ponto de vista do brasileiro, ir à praia é coisa corriqueira. A exceção foi o caso de Helô, cujas conseqüências seriam colossais.
O ano era 1962 e o músico Tom Jobim tomava uma cerveja no terraço do “Bar Veloso”, na Rua Montenegro, que segue até a praia de Ipanema. Passou por ele uma garota, com longos cabelos pretos e olhos cinza-esverdeados. Jobim, ali sentado, engoliu em seco, olhou-a passar e pôs-se à espera do dia seguinte. De novo Helô passou. Jobim arrastou seu amigo Vinicius de Moraes ao bar para lhe mostrar a garota. Assim transcorreu um certo tempo. Os dois esperavam e observavam, às vezes rindo, às vezes um pouco melancólicos; um dia beberam uma saideira, foram para casa e escreveram uma canção.
O que se seguiu é conhecido: a canção tornou-se tão famosa no Brasil quanto “Blau, blau, blau blüht der Enzian” por aqui e rápido conquistou o mundo com o título “Garota de Ipanema”. Helô Pinheiro recebeu ofertas de revistas masculinas e obrigou-se a eternizar sua juventude e beleza; uma obrigação que ela hoje – algo esticada e alourada – continua tentando cumprir. Mas não é apenas isso: a Rua Montenegro foi rebatizada de Vinicius de Moraes e o novo Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, quando construído, levou o nome de Tom Jobim num evento solene. Mais ou menos como se decidissem, numa festividade oficial, batizar um aeroporto de Adolf von Kleebsattel, o compositor de “Heinos Hit”.
Nota-se que os dois músicos realmente merecem o reconhecimento do Estado. Na realidade, “Garota de Ipanema” é o hino oficioso do país, uma declaração de patriotismo. Nem tanto pelo fato de, aqui, qualquer uma das inúmeras beldades da praia poder virar música, mas porque o Brasil coloca a praia – e com razão – no centro de todas as percepções e apreciações. Sem a praia, o Brasil seria impensável; ao lado da Constituição, ela é o bem mais valioso da sociedade brasileira. Sem praia, o país teria provocado guerras (o Brasil, ao contrário de todas as grandes nações do mundo, manteve-se até hoje sempre na defensiva) e teria se aniquilado em anarquia, terror e guerra civil; sem praia, nunca tantas religiões e cultos teriam convivido pacificamente lado a lado; sem praia, a grande experiência de construir uma sociedade, em razoável funcionamento, com portugueses, japoneses, africanos, índios, sírios, libaneses, italianos, espanhóis e alemães, teria certamente saído diferente.
O Brasil tem 7.500 quilômetros de costa, quase toda composta de praias. Outras terras também possuem longos litorais, como a Groenlândia, os Estados Unidos ou a China. Só que nesses lugares não se pode tomar banho de mar ou de sol o ano todo, salvo algumas poucas exceções. No Brasil, no entanto, você pode vagar pela costa durante um mês inteiro e continuar descobrindo uma praia nova. A cada ano surge uma nova edição do amado Guia Quatro Rodas, uma espécie de Guia Michelin tropical, dedicado exclusivamente ao litoral desse gigantesco país. Só ali são indicadas 2.100 praias.
No sul espalham-se dunas amplas, selvagens, cobertas de grama áspera, e calmas enseadas cercadas por pequenos bosques. Mais ao norte, matas de palmeiras e serras erguendo-se direto do mar, mas que ainda deixam espaço aos seus pés para uma barraca de sol e uma toalha esticada. Em seguida praias brancas, em forma de ferradura, separadas entre si por morros íngremes cobertos às vezes por grandes pedras redondas que lembram dinossauros esquecidos. No Nordeste, por fim, uma larga faixa litorânea de areias tricolores, meio árida, estende-se preguiçosamente por centenas de quilômetros.
Na realidade, porém, a praia é também outra coisa: ela estabelece a identidade de quase todos os brasileiros. Este fato tem relação com a história da colonização. Os desbravadores arriscavam-se apenas com muita hesitação nas florestas infestadas de mosquitos; na praia era muito mais bonito. Hoje há 185 milhões de brasileiros. Seu país, o quinto maior do mundo, abrange mais da metade do continente sul-americano. Apesar de todo esse tamanho, do qual só se consegue ter uma idéia sobrevoando a mata virgem durante horas sem avistar uma clareira ou uma cidade sequer, o interior do país é amplamente vazio. Mais de dois terços dos brasileiros vivem numa faixa estreita de terra na borda do país, o que vale dizer dizer que a maioria de seus habitantes não precisam de mais de uma hora para chegar ao mar. Em São Paulo, a auto-estrada que leva aos balneários, a Imigrantes, é interditada no sentido contrário nos fins de semana e funciona apenas para quem quer sair da cidade – no total, doze faixas de asfalto em direção à praia.
Os efeitos sociais disso são notáveis: na praia estão todos juntos; na praia as pessoas se conhecem e se separam. Elas vão à praia depois do expediente e antes do expediente, conversam e se despedem, fazem compras, xingam, divertem-se, fecham negócios, passam creme, riem e brincam. Até mesmo com pessoas com as quais nunca se dariam fora dali. Qualquer um pode comprar um biquíni, afinal. A praia como experiência coletiva: o que acontece quando uma nação inteira, sempre que pode, estica-se na areia, semi-nua; quando a praia está sempre presente como um Ideal, e até mesmo os famosos, ao serem expostos ao exame público pela revista de fofocas Caras, o fazem na maioria das vezes na praia da Ilha de Caras? O escritor norte-americano John Updike dedicou alguns pensamentos à questão, quando passou pelo Rio de Janeiro e estudou os corpos na praia para o seu romance “Brazil”: “negro é uma corruptela de bronzeado. Até mesmo branco, quando se observa direito. Em Copacabana, a mais democrática, lotada e perigosa praia do Rio de Janeiro, todas as cores se misturam para formar um espectro de carnes jubilosas, impregnadas de sol, que recobrem a areia como se fossem uma segunda pele.”
Essa pele é a pele do Brasil. Ela reúne tudo. Eis a lógica que faz Updike começar seu romance na praia e, muitas e muitas páginas depois, também terminá-lo por lá. Só na praia é possível que gente como Isabel, branca, rica, filhinha de diplomatas, se encontre com Tristão, o jovem negro morador da favela: a praia existe para todo o mundo, na praia não há diferenças. Por isso a ida à praia transforma-se na primeira obrigação cívica; e para a maioria não há problema em cumprir com sua obrigação cívica ao menos uma vez por semana: as praias brasileiras são protegidas pela Constituição, que proíbe praias particulares. Trata-se de uma admirável prevenção, construída oportunamente sobre a areia: pois apenas aqui as diferenças sociais se apagam, ainda que apenas por uma tarde ensolarada de domingo. Na praia, as minas sociais são desativadas. Ela é o lugar da integração e da ilusão: não se julga ninguém por sua origem. Só o corpo é a medida, não a raça ou a classe social. E talvez daí proceda o caráter revolucionário e talvez algo temerário da decisão do Presidente Juscelino Kubitschek, há cinqüenta anos, de construir a nova capital Brasília. Num planalto, bem longe do mar. Sua concepção de igualdade deveria consumar-se sem a praia; até hoje, porém, os brasileiros não se acostumaram de fato com a idéia.
Noutros países, experimentou-se tudo o que era possível em nome do fortalecimento nacional e da pacificação social. Homens vestiram fardas para parecerem todos iguais, conceberam uniformes escolares e provocaram uma vez ou outra uma guerrinha. É provável que o perspicaz Kubitschek receasse que o caminho brasileiro fosse o de uma outra forma de guerra: a farda chama-se calção de banho e biquini. E a arma secreta na guerra dos corpos, silicone.

Anne Zielke (Süddeutsche Zeitung - Magazin Nr.20 - 20.5.2005)