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Iandé - Arte com História, a arte do Brasil feita em comunidades tradicionais
Boletim de Histórias - número 7: 27/fevereiro/2006

Ritos de Puberdade

Passagem para a Vida Adulta

Os ritos de passagem se desenvovem através de três fases: a separação, a transição e a incorporação.

Nos ritos de puberdade, onde o índio deixa de ser considerado uma "criança" por seu grupo, e passa a ser visto como um adulto, é possível observar essas três fases de forma mais clara. A criança é retirada do vida normal da aldeia, passa por um período em que aprende o comportamento adulto, e por fim volta à aldeia, agora com um novo status.

Nesses ritos de passagem, a criança é separada do convívio social com a aldeia, quando atinge determinada idade. Esse momento é considerado a primeira fase do rito. A idade em que a criança é "retirada" da sociedade varia conforme as diversas etnias.

No caso das meninas, na maioria das vezes essa fase acontece na época da primeira menstruação. As índias Tikuna; que vivem na fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia; quando percebem a primeira menstruação, entram na mata, não sem antes deixarem um adorno marcando o local onde se esconderam. De lá passam a bater dois pedaços de madeira, um contra o outro, até que suas mães percebam o que está acontecendo e vão ao encontro de suas filhas, para levá-las para casa onde passarão longas semanas até que saiam de lá novamente.

Para os homens, não há uma idade tão clara. Por exemplo: os índios Xavante, que vivem no cerrado do Mato Grosso, realizam seus ritos de puberdade uma vez a cada cinco anos. Os meninos saem da casa de seus pais e passam a viver todos juntos em uma casa comunitária por todo esse tempo, até serem considerados adultos. Portanto no início da reclusão há desde meninos de 7 a 8 anos, que estarão muito velhos para esperarem o próximo ritual; até adolescentes de 12 a 13 anos, considerados muito novos no início do ritual anterior. Entre os índios Apinajé, do norte do Tocantins, a separação é feita quando o índio atinge 15 anos, mais ou menos. Já entre os Tupinambás, que habitavam a costa do Brasil na época em que os europeus chegaram aqui, os rituais aconteciam quando o índio contava mais ou menos com 25 anos.

A segunda fase dos ritos de passagem, chamada "transição", corresponde ao período em que o adolescente permanece afastado da sociedade aprendendo com os mais velhos, o comportamento adequado aos adultos de seu grupo. Entre as meninas das etnias do Alto Xingu - Mato Grosso - por exemplo, esse período é próximo a um ano. A menina não sai de um compartimento separado da casa, longe das vistas dos outros. As meninas Tikuna permanecem "escondidas" em suas casas por três meses, mas na maior parte do tempo em silêncio. Normalmente, para todos os grupos indígenas, essa fase é cercada por cuidados especiais e tabus alimentares. Acredita-se que as meninas encontram-se fragilizadas e expostas a ataques de espíritos maus.

Entre os homens esse período de transição é muito variado. Como já dito, ele dura até cinco anos para os Xavante. Já entre os índios Karajá, que habitam as margens do rio Araguaia, os preparativos para a festa de puberdade masculina duram cinco meses. Em todos os casos, durante esse período, os homens aprendem os ritos de sua comunidade, as responsabilidades para com suas futuras famílias, as atividades de caça, pesca e da guerra.

Por fim, terminado esse aprendizado da fase de transição, há um ritual de incorporação. O menino ou a menina já são considerados aptos a assumirem o papel de adultos. Eles são recebidos de volta à sociedade, mas agora é como se entrassem num outro "quarto da casa", seguindo a analogia de van Gennep.

O ritual de incorporação é geralmente bastante festivo, mas cada etnia tem sua própria forma de comemorar. Em alguns desses ritos, os "novos" adultos são obrigados a passar por momentos de dor.

Os índios Sateré-Mawé - que habitam a região entre os rios Madeira e Tapajós, na floresta amazônica - preparam uma luva cheia de grandes formigas chamadas tocandiras. Os jovens Sateré-Mawé vestem essas luvas e são picados pelas formigas, mas não podem demonstrar dor, ou serão considerados homens fracos.

Luva onde são colocadas formigas, dos índios Sateré-Mawé

Já as índias Tikuna são recebidas com uma grande festa, chamada "Festa da Moça Nova", onde homens vestidos com fantasias representando diversos espíritos da floresta, dançam e cantam por dias a fio. Ao fim da festa porém, as mulheres mais velhas arrancam os cabelos das mais novas.

Máscara da "Festa da Moça Nova", feita pelos índios Tikuna


Para saber mais:
- Rituais Indígenas Brasileiros ; organizado por Silvia M. S. Carvalho
- Tukuna Maidens Come of Age ; artigo escrito por Harald Schultz ; publicado na revista "The National Geographic Magazine", em 1959