Napoleão Sabóia, Correspondente do Jornal do Comércio, em Paris
As reverências grandiloqüentes ao sonho de jogar contra o mito Brasil, pouco importando o resultado, tributadas pelos franceses até a classificação dos "Bleus" para as quartas-de final, cedem lugar agora a uma avaliação mais realista das possibilidades do time de Zidane em relação à partida de amanhã. O primeiro a dar um desconto nas idílicas elucubrações sobre "a potência mágica jupiteriana dos brasileiros", não foram os comentaristas esportivos nem os doutores da Sorbonne, reciclados circunstancialmente nos mistérios do futebol, mas o atacante reserva dos "Bleus", Sidney Govou. "Sim, é um sonho enfrentar o Brasil, mas o verdadeiro sonho é ganhar a Copa", pôs a bola no chão.
Coube em seguida ao lateral titular Patrick Vieira o lance de reforçar o espírito que passou predominar na Seleção francesa. Ou seja, o de relativizar o favoritismo verde-amarelo, com o argumento de que individualmente os jogadores franceses se equivalem aos brasileiros. Até então modesto em suas ambições, o treinador Raymond Domenech empinou o nariz e fala agora no match perfeito que a França vai fazer contra o Brasil com o objetivo de chegar à final. "Não me venham com essa história de que uma derrota contra os brasileiros seria finalmente aceitável e honrosa. O que pretendemos, de fato, é sermos bem sucedidos em nossa Copa", afirma, com a segurança que nunca exprimira antes.
As pitorescas divagações do escritor de best-seller Erick Orsenna sobre o sucesso dos "Bleus", a ser assegurado pelo fato de que eles vão se defrontar com os epicuristas da bola, que se comportam no campo como gourmets e não como glutões, causam boas risadas, mas não convencem os entendidos franceses em futebol. "Parreira é um monstro de realismo, para ele o prato de resistência não é o show de bola, o foie-gras ou caviar das belas firulas, como reclama a mídia brasileira, mas ganhar, vencer, porque, a seu ver, o respeito só se impõe no sucesso", é o alerta do jornal Le Figaro.
Todavia, em matéria de realismo, o jornal conservador aconselha, de preferência, à Seleção francesa aprendizado de última hora com os italianos, "que são os grandes mestres na disciplina", por eles denominada catenaccio. "Com a mortadela do catenaccio, os italianos viraram a mesa do banquete futebolístico e se tornaram os coveiros históricos do jogar bonito, pelo prazer e alegria" diz o matutino conservador.
À moda italiana
Para suplantar o Brasil, segundo o consenso a que chegou, ontem, a crônica esportiva parisiense, os "Bleus" precisam apenas acrescentar uma "dose insolente de pragmatismo à italiana" entre os trunfos de que já são detentores: a força incalculável de seu sistema defensivo, encarnado por Bathez, Vieira, Makelele, Thuran e Abidal; o gênio e a experiência de Zidane combinados com a impetuosidade de Ribéry; o potencial ainda não desenvolvido de todo pelos atacantes Thierry Henri e Trezeguet; o volume de jogo alcançado pelo time com o maior entrosamento e que cresce ainda mais quando os "Bleus" enfrentam grandes equipes; e o peso da história: a eliminação do Brasil pela França nas quartas-de final da Copa de 86 e a conquista do título em 98 em cima da equipe do capitão Kafu.
De todos esses trunfos, o ortopedista Gérard Saillant, que se apaixonou pelo futebol depois de haver operado o joelho de Ronaldo em 2000, destaca o volume de jogo impressionante atingido pelos "Bleus", comprovado na vitória contra a Espanha. "Se a França aumentar ainda, como é previsível, esse volume de jogo, ela baterá o Brasil sábado e se tornará séria candidata ao troféu", garante o ortopedista que arrisca o prognóstico de 2 a 1 a favor dos "Bleus". Convidado pelo atacante, que se tornou seu amigo, Saillant assistirá ao jogo de amanhã em Frankfurt.
Sobre o desempenho do antigo paciente, o ortopedista francês afirma que dos pés de Ronaldo podem sair a classificação do Brasil para as semifinais. E comenta: "A imprensa brasileira subestimou essa virtude excepcional de Ronaldo - a vontade de aço com que ele se prepara para os grandes momentos. O que lhe aconteceu em 98, foi algo episódico, um infortúnio devido talvez à forte pressão que sofria. Ele, de fato, pegou alguns quilos a mais depois da operação (2000), porém sua estrutura óssea e sua massa muscular extraordinárias superam as inconveniências do peso. Sem dúvida, Ronaldo já não possui a mesma velocidade, mas sua menor mobilidade é compensada pela experiência, pela faro mais apurado para o instante decisivo - o de marcar o gol".
De resto, o maior trunfo do Brasil para vencer, na opinião praticamente unânime da mídia francesa, reside no virtuosismo de seu quarteto ofensivo formado por Kaká, Ronaldinho, Ronaldo e Adriano, que ainda não demonstrou todas as suas possibilidades. "E tem ainda no banco uma reserva de craques capaz de decidir a questão em poucos minutos, como Juninho e Fred", lembra o L"Equipe. "No frigir dos ovos, o Brasil entrega sua sorte a talento de suas individualidades, sem propor um verdadeiro conteúdo de jogo", observa ainda o periódico.
Para o jornal Le Parisien, o mais popular jornal francês, há paradoxo no realismo de Parreira, na medida em que a potência e as promessas de sua linha de atacantes contrastam com as falhas e pixotadas da defesa, defesa que tanto já fez sofrer os torcedores do Brasil. O periódico não descarta a hipótese do suplício final amanhã.