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"Futebol é o 1º império universal da história"
Napoleão Sabóia, Correspondente do Jornal do Comércio, em Paris


O futebol é o primeiro império universal da história da humanidade e nele o Brasil faz figura de superpotência. Com a diferença de que, ao contrário dos impérios da geopolítica, o país de Ronaldinho exerce seus poderes pela força da sedução e do encanto, o que explica a imagem positiva, consensual de que goza num mundo, onde as cores verde e amarela se tornaram símbolos da paz, da alegria e da amabilidade.

Essa é a opinião do professor Pascal Boniface, diretor do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas da França (IRIS) e renomado especialista de questões geopolíticas. Na entrevista que se segue, ele aborda alguns dos temas do novo livro "Futebol e Globalização" (Editora Armand Colin) que acaba de lançar na Europa, com notável sucesso de crítica e de público.


O senhor escreve que o futebol representa o estágio supremo da globalização?
- Não existe fenômeno mais global do que o futebol. Fala-se da democracia, da internet, da economia de mercado como elementos-chave da globalização, mas o futebol vai mais longe, sendo mesmo o arquétipo desse processo. Ele não conhece limites nem fronteiras. Está presente em vilarejos da Ásia e da África onde a eletricidade ainda não chegou. No plano institucional, a ONU conta com 191 países, enquanto a FIFA, com 207. George Bush, Ben Laden, o papa são universalmente conhecidos, mas Ronaldinho, Beckham e Zidane os suplantam em notoriedade e, sobretudo, em popularidade.

O que poderia diferenciar a globalização pelo futebol da globalização pela economia?
- A diferença notável está em que a globalização pelo economia de mercado tende a favorecer a uniformização cultural, enquanto a globalização pelo futebol, em vez de dissolver ou comprimir as identidades nacionais, reforça a afirmação destas em países divididos por uma serie de peculiaridades históricas bem arraigadas. Cito um só exemplo, o da Bélgica, onde flamengos e valões se distinguem em tudo. Os dois povos têm suas próprias representações no Parlamento, seus jornais, escolas, outras formas de expressão nacional, mas se reconhecem e se unem em torno de dois marcos institucionais incontornáveis - o rei e o futebol. Em muitos outros países, às voltas com questões étnicas, conflitos armados, como a Costa do Marfim, é a seleção nacional que ainda consegue "segurar" a unidade nacional ameaçada.

O senhor não hesita a comparar o futebol aos grandes impérios.
- O futebol é o primeiro império universal com extensão incomparavelmente maior daquele que os romanos edificaram na antiguidade ou deste que os americanos tentam implantar no mundo de hoje. Mas os impérios geopoliticos se impõem pela força, pela aplicação de leis discricionárias às populações subjugadas, enquanto o império do futebol é fruto da sedução, do encantamento que o drible-samba de Ronaldinho, o gol explosivo de Ronaldo e o balé de Zidane com a bola exercem sobre os povos. Estes são conquistados pelo futebol de maneira voluntária, entusiástica, prazerosa. Se os ingleses tivessem desejado impor, pela força, o esporte bretão aos brasileiros, assim como os americanos tentam implantar a democracia no Iraque, o Brasil talvez não fosse, hoje, a superpotência do futebol no mundo globalizado.

No que diferem as posições hegemônicas ocupadas pelo Brasil e pelos Estados Unidos nas duas concepções geoestratégicas que o senhor formula - a do futebol e a da política?
- A diferença é que na geopolítica do futebol, o Brasil, superpotência, é popular, amado, admirado, adulado de maneira praticamente unânime, enquanto a hegemonia dos Estados Unidos no domínio da geopolítica clássica envolvendo o jogo de poder entre nações está longe ser consensual. Não há entre os "devotos" dos futebol um antibrasilianismo primário ou não, como existe um anti-americanismo em todas as tonalidades planfetárias.

Que proveito o Brasil, país em desenvolvimento, poderia tirar fora dos estádios da aura que conquistou com o futebol?
- O futebol não será a varinha mágica que vai fazer a Organização Mundial do Comércio mais sensível, receptiva às reivindicações do Brasil para o advento de uma ordem econômica mais justa. As decisões sobre investimentos dependem de fatores, de parâmetros alheios às regras do futebol, como a qualidade das infra-estruturas, tamanho e potencial do mercado, estabilidade politíca etc. Mas, a popularidade, a simpatia e a reserva afetiva acumuladas pelo Brasil por causa do futebol reforçam a representação positiva do País numa civilização em que ninguém subestima o imenso poder da imagem. Hoje, o carro-chefe dessa imagem, no caso do Brasil, é o futebol caloroso, festivo e generoso que ele pratica. É por aí que os investidores e responsáveis políticos europeus começam em geral uma conversa com seus interlocutores brasileiros - conversa que pode levar a múltiplas possibilidades de cooperação.

Aos critérios tradicionais que definem um Estado, ou seja, um território, uma população, um governo, Pascal Boniface acrescenta uma seleção nacional de futebol. O senhor não exagera um pouco no capítulo?
- Concedo que se trata de uma boutade, mas séria. Embora o futebol nâo seja um critério de reconhecimento internacional, ele permite demonstrar o vínculo a uma identidade coletiva, nacional. Assim, o futebol precede a geopolítica. As jovens repúblicas surgidas com o fim da União Soviética tiveram suas filiações à FIFA antecedidas pela admissão à ONU. Seus povos se identificaram mais facilmente no concerto das nações por meio de suas seleções nacionais do que pelas suas bandeiras tremulando na sede das Nações Unidas. Os territórios franceses da Nova Caledônia e da Polinésia esperam que suas adesões à FIFA prefigurem a conquista da independência política. O futebol, como bem compreenderam os palestinos ao se filiarem à FIFA, oferece uma visibilidade que nenhuma outra atividade garante. Diria ainda que somente a FIFA consegue assegurar uma convivência pacifica entre nações politicamente em conflito, como Israel e a Palestina, a China e Taiwan. O Japão e a Coréi a do Sul se reaproximaram com a organização conjunta da Copa de 2002.

O que o senhor pensa das tentativas de regimes autoritarios, ou não, de utilizarem o futebol como arma política?
- Essa utilização não é mais possível hoje na sociedade da informação de massa. Um regime que tentasse utilizar o futebol em proveito próprio e os sucessos da equipe nacional acabariam recolhendo efeitos adversos imediatos. Já em 1978, a demonstração foi feita em Buenos Aires. O fato de os argentinos terem conquistado a Copa daquele ano em nada beneficiou o regime militar instaurado no país. Ao contrário, a Copa serviu de janela pela qual a imprensa internacional focalizou os desmandos e violências da junta militar. Mas existem tambem exemplos em que os estádios foram utilizados como lugares de contestação do poder, como caixas de ressonância de reivindicações politicas e sociais. Na Espanha de Franco, as arquibancadas do Futebol Clube Barcelona serviram de suporte para manifestações antifranquistas.

Como anda a teoria do "futebol novo ópio do povo"?
- Hoje, somente uma reduzida brigada de talebans da sociologia a esposam no absurdo pressuposto de que os povos são todos uns idiotas que deixam os cérebros no armário quando partem para o estádio. Esses arautos da extrema esquerda têm ciumes do fato de que os povos se divertem, eles não suportam a paixão popular motivada pelas expresões lúdicas da vida. Eles fazem de conta que esquecem que os estádios são tambem cenários para a afirmação da cidadania e dos valores democráticos.

Quais são os riscos que corre o império do futebol? O que poderia destruí-lo?
- O império do dinheiro. O principal combate para preservá-lo consiste encontrar nova regulação do futebol que não fique sujeita apenas às leis econômicas. As competições continuarão sendo organizadas segundo critérios puramente esportivos ou vão ser cada vez mais reguladas pelo poder do dinheiro? As seleções nacionais vão desaparecer em proveito dos clubes poderosos que já formam na Europa o inquietante G-14 (grupo dos clubes mais ricos)? Em suma, a paixão pelo esporte se baseia na sua famosa e gloriosa incerteza, no seu carater aleatório, enquanto os investidores adoram apenas as certezas. Se as regras do jogo forem falseadas, a ponto de uma final Brasil-França, por exemplo, se converter num duelo entre marcas industriais o público se desviará para outras formas de esporte julgadas mais éticas e consentâneas com o espírito esportivo. O futebol, gangrenado pelo dinheiro, poderá sobreviver como espetáculo, mas não será mais um esporte na acepção genuína da palavra.