La Langue Portugaise, le Brésil, la Lusophonie, La Mondialisation Linguistique:                
Un Nouveau Regard                

Vai um café, camarada ?

                      Um dos meus hábitos matinais é tomar um café. Desde os meus tempos de infância nas remotas aldeias do monte de Manumera, em Timor. Tomar é como quem diz. Gostava era do cheiro do café, quando se espalhava pela casa dentro. Só os adultos podiam saborear o precioso líquido.
                      Tive discussões bastante acaloradas, com os meus colegas agrónomos, sobre a qualidade dos cafés dos respectivos países. Cada um esforçava-se por afirmar, que o café do seu país era o melhor do mundo, e apontava uma série de razões para esse facto. Chegámos a conclusão unitária, patriótica, revolucionária, que o melhor café do mundo, era aquele que se bebia no país de cada um.
                      Nunca por alguma vez provei café. Nem mesmo o de Timor que afirmei a pé juntos ser o melhor do mundo. Uma afirmação que deixou cair por terra todo o meu argumento. Se nunca o provei não tinha razões para afirmar que era o melhor. Continuei a assegurar que talvez fosse por isso. O melhor café era aquele que se tomava sem nunca o provar. Ninguém precisava de fazer o sacrifício de engolir aquele líquido amargo. Bastava cheirar e ficava saciado.
                      Encontrei o cheiro da minha infância, quando cheguei a Lisboa, a cidade com ruas onde o cheiro do café se mantém intacto como nos tempos coloniais. Muitos dos meus amigos concordaram comigo, não deixando, no entanto, de sublinhar que Lisboa nunca perdeu a sua auréola dos tempos coloniais por causa das flores dos jacarandás nos fins de Maio. Também por causa das birras que de tempos em tempos alguém resolvia fazer para ajustar contas antigas. Houve quem tivesse dito que o Brasil nasceu precisamente no momento em que alguém se embirrou. Caso para se dizer, que há birras e birras, e outras que vêm por bem.
                      - Vai um café, camarada?
                       Era assim que me convidavam os meus colegas de Agronomia, alguns distintos militantes dos movimentos de Libertação da África Portuguesa quando queríamos discutir política.
                      O patriotismo obrigava cada um a tomar apenas o café do seu país. O porta voz pedia a alto e bom som:
                      - Um café de Angola para o camarada Eduardo. Um café de S. Tomé e Príncipe, para o camarada Trovoada. Um de Cabo Verde para o camarada Semedo e um de Timor para o camarada Araújo.
                      O moçambicano optava pelo chá, não porque o camarada Joaquim tivesse birras de um aristocrata inglês, mas porque ali se plantava o melhor chá do mundo. O camarada Vieira da Guiné Bissau, fiel ao princípio da unidade Guiné - Cabo Verde não pediu nada. Tomava a meias com o camarada Semedo, ao mesmo tempo que piscava um olho ao café do Brasil. Foi o único que parecia ter descoberto as razões, para os brasileiros não precisarem de afirmar que tinham o melhor café do mundo.
                      Lembrava-me que nesse tempo, os únicos que não tinham pruridos revolucionários, eram os brasileiros. Colocavam o café e a mulata no mesmo saco. Não sei se a ordem de (ex)citação é essa. Há quem prefira primeiro a mulata e só depois o café. Provavelmente não havia nenhuma ordem. Quem mandava no Brasil era o general Figueiredo. Ele gostava do cheiro dos cavalos.
                      Todos tomavam o seu café menos eu. Deliciava-me com o seu cheiro e no fim deixava a chávena cheia. Fui acusado pelos meus camaradas que isso era um acto burguês, reaccionário. Se queria a independência da minha terra tinha de o provar. Foi assim que fiz a minha iniciação. Coisas que a Pátria obriga. Só sei que desde então a minha boca ficou mais amarga. Também as palavras.
                      Quem ficou sem o seu café de Timor foi o empregado de mesa. Na altura não se chamava assim. Era camarada revolucionário servidor de café.
                      Um dia, quando lá voltamos para as nossas tertúlias revolucionárias, fui incumbido de fazer o pedido. Abstive-me de enumerar toda a nomenclatura dos países de língua oficial portuguesa e os nomes dos camaradas. Reduzi a frase à sua forma simples por forma que o entendimento fosse mútuo
                      - O costume
                       O que fez o camarada revolucionário servidor de café ficar vermelho de raiva e levantar os punhos.
                      Tinha dúvidas se queria fazer uma saudação ou dar-me um soco, mas optou por fazer um alerta
                      - Camaradas ultramarinos. Aqui neste país à beira mar plantado, de cravos vermelhos, que se chama Portugal, e em tempos já foi Lusitânia, fomo-nos livrando dos romanos, árabes e judeus, castelhanos, também dos pides, não servimos o costume. Só bicas e é se querem!
                      - Não tem café ?
                      - Só de cevada.
                      - Então, aquilo de Angola, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Timor...?
                      - Tudo de cevada
                      - Também do Brasil?
                      - Levam todos com a cevada. O melhor café do mundo.
                      - Camarada Tuga, e as torradas?

Luis Cardoso


Un café, camarade?

                      J’ai pour habitude de prendre un café le matin. Depuis mon enfance dans les villages les plus lointains du mont de Manumera, à Timor. Prendre, ce n’est pas le terme exact. Ce que j’aimais, c’était l’arôme du café quand il se répandait dans la maison. Seuls les adultes pouvaient savourer le précieux liquide.
                      J’ai eu des discussions assez vives avec mes collègues agronomes sur la qualité des cafés de nos pays respectifs. Chacun s’efforçait d’affirmer que le café de son pays était le meilleur du monde, et présentait une série de raisons pour le justifier. Nous sommes arrivés à la conclusion unitaire, patriotique , révolutionnaire, que le meilleur café du monde était celui qui se buvait dans le pays de chacun.
                      Je n’ai jamais bu de café. Pas même celui de Timor dont j’affirmai obstinément qu’il était le meilleur du monde. Une affirmation qui faisait s’écrouler toute mon argumentation. N’en ayant jamais bu, je n’avais aucune raison d’affirmer qu’il était le meilleur. Je continuai à affirmer que c’était peut-être pour cela. Le meilleur café était celui que l’on prenait sans jamais le boire. Personne n’avait besoin de faire le sacrifice d’avaler ce liquide amer. Il suffisait d’en respirer l’arôme et on était comblé.
                      J’ai retrouvé l’odeur de mon enfance quand je suis arrivé à Lisbonne , la ville aux rues où l’odeur du café reste intact comme du temps de l’époque coloniale. Nombre de mes amis ont été d’accord avec moi, ne manquant pas, cependant de souligner que Lisbonne n’a jamais perdu son auréole de l’époque coloniale à cause des fleurs des jacarandas à la fin mai. Et aussi à cause des colères que de temps à autre quelqu’un piquait pour régler de vieux comptes. Au dire de certains le Brésil est né précisément au moment où quelqu’un a piqué une colère. C’est le cas de le dire, il y a colères et colères, et certaines sont bénéfiques.
                      - Un café, camarade?
                      C’était ainsi que mes collègues d’Agronomie m’invitaient, de distingués militants des mouvements de libération de l’Afrique portugaise quand nous voulions discuter politique. Le patriotisme obligeait chacun d’entre nous à ne prendre que le café de son pays. Le porte-parole demandait d’une voix sonore:
                      - Un café d’Angola pour le camarade Eduardo. Un café de São Tomé e Príncipe pour le camarade Trovoada. Un du Cap-vert pour le camarade Semedo et un de Timor pour le camarade Araújo. Le moçambicain optait pour le thé, non pas parce que le camarade Joaquim faisait des caprices d’aristocrate anglais, mais parce que là se trouvaient les meilleures plantations de thé du monde. Le camarade Vieira da Guiné Bissau, fidèle au príncipe de l’unité Guinée Cap-vert ne demandait rien. Il partageait avec le camarade Semedo, tout en lorgnant le café du Brésil. C’est le seul qui semblait avoir découvert les raisons pour que les brésiliens n’aient pas besoin d’affirmer qu’ils avaient le meilleur café du monde.
                      Je me rappelle qu’à cette époque-là, les seuls qui avaient pas de prétentions révolutionnaires, c’étaient les brésiliens. Ils plaçaient le café et la mulâtresse dans le même sac. Je ne sais pas si l’ordre d’(ex)citation était celui-là. D’aucuns préfèrent d’abord la mulâtresse et seulement ensuite le café. Il n’y avait probablement aucun ordre. Celui qui dirigeait le Brésil était le général Figueiredo. Il aimait l’odeur des chevaux.
                      Tous prenaient leur café sauf moi. Je savourais son arôme et à la fin je laissais la tasse pleine. Mes camarades m’accusèrent de pratiquer un acte bourgeois, réactionnaire. Si je voulais l’indépendance de mon pays, je devais le boire. C’est ainsi que s’est faite mon initiation. Ce à quoi la Patrie oblige. Je sais seulement que dès lors ma bouche est devenue plus amère. Les mots aussi. Celui qui a perdu son café de Timor c’est le serveur. A l’époque on ne l’appelait pas ainsi. C’était le camarade révolutionnaire serveur de café.
                      Un jour, quand nous sommes revenus pour tenir nos réunions révolutionnaires, j’ai été chargé de passer la commande. Je me suis abstenu d’énumérer toute la nomenclature des pays de langue officielle portugaise et les noms des camarades. J’ai réduit la phrase à sa forme la plus simple pour que la compréhension soit mutuelle:
                      - Comme d’habitude
                      Ce qui a fait rougir de colère le camarade révolutionnaire serveur de café qui a montré les poings Il hésitait entre me saluer ou me donner un coup de poing, mais il a choisi de lancer un avertissement:
                      - Camarades d’outre-mer. Ici dans ce pays planté en bord de mer, aux oeillets rouges, qui a pour nom Portugal, autrefois Lusitanie, nous nous sommes libérés des Romains, des Arabes, des Juifs, des Castillans, et également de la police politique, nous ne servons pas comme d’habitude. Seulement des petits noirs et seulement si vous le désirez.
                      - Vous n’avez pas de café?
                      - Seulement d’orge.
                      - Alors, le café d’Angola, du Cap-vert, de São Tomé e Príncipe, de Timor…?
                      - Tout d’orge
                      - Celui du Brésil aussi?
                      - Tous contiennent de l’orge. Le meilleur café du monde.
                      - Camarade porto, et les toasts.

D’après Luis Cardoso
Traduction de Annie Marques dos Santos



Luís Cardoso


Luís Cardoso est né en 1959 à Cailaco, Timor oriental, où son père était infirmier rural. Lors de l'invasion indonésienne, il a participé activement à la résistance étudiante et a été représentant au Portugal du Conseil national de la résistance maubère.
Ingénieur forestier au Portugal, il est l'auteur du premier roman portugais du Timor.

Il a déjà publié trois romans en langue portugaise :
- 1997, "Crónica de uma Travessia - A época do Al Dik-Fuman"
- 2001, "Olhos de coruja, olhos de gato bravo"
- 2003 "A última morte do coronel Santiago"
En 2002, il avait publié "O Pássaro azul", un livre de contes pour enfants

En 2000, "Crónica de uma Travessia" est devenu, en français, dans une traduction de Jacques Parsi, "Une île au loin" aux éditions Métailié (160 pages). Ce roman a été traduit également en allemand (2001), en italien (2002) et en suédois, la même année, puis en anglais en 2005.